O século do Espirito Santo

Publicado: 1 de dezembro de 2011 em Uncategorized

O século do Espirito Santo

100 anos do Avivamento Pentecostal e Carismático

Abordar este tema tão maravilhoso que produziu na historia da humanidade principalmente no segmento evangélico e carismático produzindo efeitos de transformação oriundo da atuação do Espirito Santo no seio da Igreja trazendo maravilhas como o novo nascimento, e uma ligação fenomenológica inspiradora na vida das pessoas . Pena que no século XXI , o tema seja pouco mencionado e enfatizado quase que um fenômeno do passado e não atual. Quando Jesus, partiu deixou claro que o consolador viria para ocupar seu lugar após sua ascensão ao Pai e enviaria o Espírito Santo , que tudo ensinaria e daria , inicio a um novo processo de transformação do homem comum em um novo ser a imagem e semelhança de Cristo. O primeiro homem era da terra ou terreno e o segundo seria espirito vivificante ou melhor traduzindo a eficácia

do Espirito na transformação do barro perecível em um espírito vivo e eterno. Esse mistério Paulo menciona em suas cartas deixando claro a obra e ministério do Espirito Santo , ele continua operando na Igreja mesmo sendo posto de lado como simples arquétipo que poderia comparar com qualquer marca de produto vendido nas prateleiras que logo após seu uso torna-se descartável diante de uma sociedade de consumo onde tudo transforma-se em mercadoria e no meio evangélico não é diferente o Espirito Santo , transformou-se em simples marca de campanhas publicitarias que poderíamos compara-la a Côca-cola, ou outras marca vendida e estampada em camisas na mente das pessoas como simples icogne, gerador de lucros e pseudo santificador mais na pratica ele esta bem longe. Por isso percebemos que os tele-evengelista estão utilizando o Marketing como o novo veículo de disseminação nas mentes humanas , impondo esta marca como forma de um consumo e não como o verdadeiro santificador e transformador da vida do homem. A forma selvagem do capitalismo mundial tem sido o diferencial desses neo-pentecostais , e outras instituições ditas evangélicas que distante do que Jesus ensinou cada vez mais criam Impérios que são construídos e legitimados com a idéia de atingir o maior nº possível de pessoas . Existe hoje o mercado de trabalho e podemos dizer que também um mercado consumo evangélico que cresce exponencialmente para atender as demandas “espirituais das pessoas” , inocentes, em meios a lobos vendendo tudo e dando um ar de “sagrado”.
O movimento na Rua Azusa nos Estados Unidos , foi sem dúvidas o diferencial do século passado mais o Espirito Santo , continua atuando na atualidade . Devemos voltarmos para ele e sentiremos o mesmo calor e manifestação no seio da Igreja , pois , o mesmo veio para adorna a noiva para Cristo, e sua pessoa não pode ser excluída por mero argumentos consumista, materialista , preconceituosos e sim real para transformar vidas . O objetivo focado nele (Espirito Santo) produz vida e vontade de viver. Pela Organização Mundial de Saúde, a depressão está em 4º (quarto lugar em doenças da alma ) Com o movimento do Espírito sendo renovado e uma atuação da Igreja podemos diminuir o porcentual de suicidas e depressivos no planeta , com mudanças de ordem sócio econômicas e uma busca pela harmonia com a natureza em vez de transforma-la em simples mercadoria.

As décadas de 50 ,60, 70, o batismo com o Espirito Santo , foi sem dúvidas um fenômeno de ordem social onde a parcela da sociedade civil foi balançada com o derramamento do Espirito Santo , causando até discursos no âmbito interno evangélico com o secular. Matéria de capa do Times. Devido a repercussão de um líder negro sem muitos atrativos de chama-se atenção da sociedade América, foi o estopim para que os críticos e racista da época se colocassem contra o mesmo devido a mistura de brancos e negros em uma comunidade que viria e vivenciaria um dos maiores fenômenos sobrenatural .

Vila Mariana: “gangue de crianças “ volta a atacar

Nos últimos 11 dias , foram registrados pelo menos cinco casos de furtos e tentativas de ataque contra motoristas, pedestres e comerciantes .

Luísa Alcalde

Após quase um mês sem perturbar comerciantes e moradores do bairro da zona sul de São Paulo, as “ meninas da vila Mariana”, acusadas de roubos e arrastões, voltaram a atacar. Nos últimos 11 dias foram registradas cinco ocorrências ,agora com a participação de meninos . Em quatro casos, meninos e meninas de 9 a 15anos foram apreendidos por policiais militares que estavam em patrulhamento .A outra ocorrência, no domingo ,não foi comunicada à polícia.
Na última sexta-feira, às 11 horas, quatro garotos e uma menina abordavam motoristas na Avenida Noé de Azevedo e exigiam dinheiro das vítimas, mas não conseguiram concluir os assaltos. PMs apreenderamo grupo e o levou para o Conselho tutelar da Vila Mariana.
A garota , R.P.A., de 14 anos, já esteve envolvida em outras ocorrências, em agosto e em setembro . No dia22, às 17h30, policiais flagraram a mesma menina e dois meninos assustando moradores na esquina da Noé de Azevedo com a Rua Dona Júlia . R. foi levada ao Conselho Tutelar e, depois, para um abrigo. C.J.G.S., de 11 anos , é outra “das meninas da Vila Mariana “que voltou em furtos. No dia 29, às 11h40, foi pega pela PM nas proximidades do Viaduto Santa Generosa após tentar furtar pedestres com outros adolescentes. Como nada foi roubado, ela foi levada ao Conselho Tutelar da região. Os demais conseguiram fugir. No mesmo viaduto, no dia 24, policiais a surpreenderam novamente furtando o relógio de uma mulher. O caso foi registrado no 16º DP (Vila Clementina) e ela foi levada ao Conselho Tutelar.
No último domingo , às 10 horas, Rosélia Aparecida Alves da Silva, funcionária do quiosque Vitta Pane no Terminal Vila Mariana, foi surpreendida por seis meninos e uma menina. “Eles pegaram bolos, lanches e sucos e me ameaçaram. Quando foram embora , jogaram o que estavam no balcão em mim “, contou ela , que não registrou ocorrência.

Segurança. Segundo o capitão Flávio Baptista, comandante do 12º Batalhão da PM, o policiamento foi reforçado na Rua Domingos de Morais e nas proximidades das estações Metrô. “Tantos que foi possível fazer esses quatro flagrantes e evitar inúmeros outros. Porém ,por causa de limitações legais , não cabe a nós a resolução desse problema.”
A Secretaria Municipal de Assistência Social informou apenas ter tido conhecimento apenas de um caso. Acelino Margues , conselheiro tutelar da Vila Mariana, disse ter recebido crianças envolvidas em furtos duas vezes neste mês. “Como moram em cidades Tiradentes, os casos foram encaminhados para lá. Nós mesmo os levamos de van.”

Sem comunicação

P promotor da Infância e Juventude Thales Cézar de Oliveira diz que não foi avisado pelo Conselho Tutelar sobre os novos casos ,”É um grave problema essa falta de comunicação.”

Terrorismo direito dos oprimidos . O terrorismo deve fazer parte dos direitos humanos pois grupos ou sociedades oprimidas pelo Estado ou grupos economicos indefessos devem utilizar do do terrorismo como forma de defesa . Vejamos o caso do pcc em São Paulo, o terrorismo que colocou a sociedade e o Estado em alerta máximo e consequência desses grupos que foram ao longo do tempo oprimidos e excluído de acesso a educação de qualidade e emprego e educação superior . No meu entender tem todo direito ao ato terrorista contra quem os oprime.

O Estado Nacional não atende a sociedade

Publicado: 17 de outubro de 2011 em Uncategorized

O Estado nacional não atende a Sociedade

O autor e consultor de presidentes diz que a crise financeira mostra que as formas de governo vão mudar radicalmente

Os ESTADOS NACIONAIS VÃO DEIXAR DE ESIXTIR E SERÃO SUBSTITUIDOS POR UMA simbiose do setor financeiro, de entidades privadas e do governo. Será o Estado-mercado. A tese é do texano Philip Bobbitt, de 63 anos, professor de Direito Constitucional na Universidade do Texas. Autor de A guerra e a paz na história moderna, um dos livros mais influentes da última década, Bobbitt foi consultor de quase todos os presidentes dos Estados Unidos desde 1970. Em entrevista a Época, ele afirma que a crise econômica que assola o Hemisfério Norte desde 2008 não desmente a tese do Estado-mercado.
“A crise é a prova da mudança” diz ele. “A falência do mercado causaria danos incontornáveis aos Estados.”

Época – Em seu livro A guerra e a paz na historia moderna, o senhor afirma que os Estados nacionais, nascidos há 500 anos, vêm sendo substituídos pelo Estado-mercado, uma simbiose do setor financeiro com a politica. A crise econômica de 2008 alterou essa visão.
Phillip Bobitt – Não alterou. Na verdade, reforçou a idéia de que o mundo é governado pelo mercado, não mais por nações. O que vemos na crise atual? Governo incapazes de solucionar uma crise financeira e econômica perpétua , por mais que se esforcem. Os governos não conseguem regulamentar a economia ou estatizar as empresas. Mesmo que guisessem, não conseguiriam, por causa da natureza global dos investimentos. É um sinal da vulnerabilidade das sociedades.

Época – A reação dos governos à crise na Europa não vai no caminho inverso: reforçar as nações ante o mercado?

Bobbitt – Ao contrário, é a prova da mudança. A pressa em socorrer bancos e instituições financeiras para salvar a economia demonstra que a falência do mercado levaria a danos incontornáveis aos Estados. Mas os governos ainda não entenderam bem a mudança em curso. Tentam reagir com aparatos regulatórios antiquados diante de uma crise contra a qual não têm como lutar. A mudança que ocorre de Estados-nação para Estados-mercado não é uma questão de vontade: é inevitável. É o caminho que estamos seguindo; a expansão de um regime econômico mundial que ignora as fronteiras na movimentação de investimentos de capital impede os Estados de administrar nacionalmente seus problemas econômicos. Por isso os políticos europeus estão num beco sem saída.

Época – O senhor pode explicar melhor as diferenças entre Estado-nação e estado-mercado?
Bobbitt – O nascimento do Estado moderno data da Renascença. Quando principados e ducados italianos enfrentaram os reinos da Espanha e da França. Eles inovaram radicalmente em vários campos, mas principalmente na introdução da artilharia móvel. Quando essas armas entraram na Itália, as defesas foram ineficazes. As cidades italianas eram muito ricas, mas desprotegidas. Precisaram encontrar novas fontes de renda para construir muralhas distantes de seus centros, mais altas, e posicionar sua própria artilharia. Tiveram de criar alianças menos efêmeras do que as anteriores, com embaixadores para negociar. Precisaram criar uma burocracia para manter forças militares no campo por mais tempo e não apenas contratar mercenários. Para fazer isso, precisavam de um Estado. O Estado moderno surgiu com a necessidade de desenvolver uma ordem constitucional para suplantar as ordens feudais, por meio da eficácia bélica.

Época As guerras criaram as nações, então?

Bobbitt – De certa maneira, sim. A guerra é a essência humana, um ato criativo do homem civilizado. Animais não entram em guerra. Grandes conflitos de coalizões foram cruciais para o nascimento e o desenvolvimento dos Estados-nação. O que houve no século XX foi uma “Longa Guerra” com vários conflitos. Ela começou com a Primeira Guerra mundial, em 1914, e só terminou com a Queda do Muro de Berlim, em 1989. A Longa guerra girou em torno de uma questão constitucional fundamental: que tipo de Estado-nação (comunista,fascista ou democrático) herdaria a legitimidade antes atribuídas aos Estados-nação imperiais do século XIX. O fim da Guerra Fria pôs fim a Paz de Vestfália (tratados assinados em 1648, que puseram fim a querras europeias e são considerados o marco do sistema de Estados nacionais).

Época – Por que o ordenamento tradicional está Xeque?
O estado nacional é incapaz de dar à sociedade aquilo que ela almeja. É incapaz de prover o bem-estar prometido, com políticas de seguridade social, sistema de educção e saúde de massa gratuitos, direitos humanos para todos. O Estado-na~]ao é centralizador , enquanto o Estado-mercado será responsável por maximizar as opções disponíveis aos indivíduos e aumentar as oportunidades para a sociedade – não por regular os negócios para promover e fornecer o bem-estar de homens e mulheres.

Época – O que minou a existência dos Estados-nação?
Bobbitt – Em 1519, italiano Nicolau Maquiavel escreveu que não a muro, por mais que seja , que não possa ser arrasado pela artilharia. É o que acontece com as fronteiras nacionais. A proliferação de ameaças globais e transnacionais transcende as fronteiras dos Estados. Catástrofes ambientais , migração,doenças,a ampla distribuição de armas de destruição em massa e do terrorismo não têm fronteiras.
Epoca – Como será o Estado do futuro?
Bobbitt – O fim do estado-nação não é o fim do Estado, que sempre será necessário para proporcionar segurança, organização fiscal e Lei. O Estado não está morrendo, apenas sofre mais uma de suas transformações periódicas. Se a mudança será boa ou ruim, só o tempo dirá. A nova sociedade política mundial será ditada pelas regras do mercado, e o futuro Estado-mercado será coordenado por uma ordem jurídica mundial, supranacional.

Época – Quando o senhor escrever seu livro, as nações emergentes que integram os Brics (Brasil,Russia,Ìndia e a recém integrada África do sul) não eram as potências que são hoje. Esses países se enquadram na definição de Estado-mercado?
Bobbitt – Perfeitamente. Os emergentes evoluíram de modelos de governo de Estados-nação para Estados-mercado. Índia e china usavam o aparato político para comandar a economia. Um dia saíram desse medelo, se abriram e se integraram ao Estdado-mercado. Agora participam do comércio mundial e suas economias afetam e são afetadas pelo mercado global. Tiraram da posição abaixo da linha da pobreza cerca de 40% de sua população e dobraram suas receitas. Nunca ocorreu nada parecido em um período tão curto. Isso aconteceu por sua causa da integração ao Estado-mercado.

Época – O senhor acredita no declínio do poder americano?

Bobbitt – Sou uma das poucas pessoas nos Estados Unidos a duvidar da tão propalada decadência do poder americano. Todo mundo acha que a China vai puxar o tapete americano e tomar o lugar dos Estados Unidos no pedestal da condução mundial. Duvido. A participação dos Estados Unidos na economia mundial é gigantesca, e nossas Forças Armadas são incomparáveis. Os Brics certamente se tornaram influentes e serão mais. Mais isso não tem nada a ver com o declínio dos Estados Unidos. Há uma equação errada quando se diz que o crescimento de outros países do mundo se tornam prósperos e livres, mais os Estados Unidos ganham.

Época – Como isso se manifesta na prática?

Bobbitt – Imaginemos que você é um estudante. Você se graduou, se formou, é um ph. D. Você ´e natural de uma pequena aldeia no Texas e volta para morar lá. Você não vai se sentar com os caipiras de seu vilarejo e conversar naturalmente.Vai acha-los incultos e eles vão achar pretensioso e pedante. Você vai querer se sentar com pessoas cultas e educadas. Vale o mesmo para os países . Um mundo em que Brasil, russia,China, Ìndia e outros fiquem mais ricos não é um mundo em que os Estados Unidos terão menos influência ou poder. Ao contrário.É um mundo em que os diálogos serão mais abertos e inclusivos.

Época – Nesse novo mundo, uma disputa por poder entre China e Estados Unidos não é possível?

Bobbitt – A China não pretende assumir o papel dos Estados Unidos como força hegemônica global. Está interessada na economia e naas questões locais de sempre: a influencia regional , a relação com Taiwan, o leste Ásiatico e os conflitos no Mar do Japao. Não acredito em uma nova Guerra Total, longa e envolvendonações em busca de poder hegemônico. Acredito em pequenos conflitos e intervenções periódicas , coordenadas por um conjunto de nações aliadas para garantir a manutenção do Estado-mercado ante as verdadeiras ameaças, como o terrorismo moderno, que não vem sendo combatido corretamente.

Época – Por quê?
Bobbitt – Os Estados pensam que conhecem e entendem o terrorismo, mas não conhecem. Os governos ainda pensam que o terrorismo moderno é igual ao adotado por grupos como o IRA (Exército Republicano Irlandes) ETA (Patria Basca e Liberdade), os Vietcongues. Pensam que é apenas mais um exemplo do tipo de terrorismo que havia na era dos Estados-nação. Pensam assim porque se acostumaram a enfrentar a ameaça do terrorismo nacionalista. Mas o terrorismo mudou. A al-Qaeda é uma organização terrorista descentralizada, desvinculada de nacionalismo, totalmente nova em relação ao terrorismo do passado. O 11 de setembro foi um sinal desse terrorismo do Estado-mercado, que ainda não foi compreendido. É preciso reforçar as alianças, para parceiros dos EUA perceberem que a vulnerabilidade americana é , na verdade ,a vulnerabilidade do mundo inteiro.

Entrevista dada a Revista Época

O Estado Nacional não atende a Sociedade

Publicado: 13 de outubro de 2011 em Uncategorized

Isván Meszáros

Publicado: 12 de outubro de 2011 em Uncategorized

Isván Meszáros

Um dos principais pensadores da esquerda contemporânea, o filósofo húngaro István Mészáros construiu desde seus primeiros escritos nos anos 1950 uma trajetória intelectual marcada pelo diálogo com a obra de Karl Marx. Em seu novo livro, “Estrutura social e formas de consciência II: A dialética da estrutura e da história” (Boitempo, tradução de Rogério Bettoni), Mészáros volta mais uma vez a Marx para criticar as correntes intelectuais que, segundo ele, pretendem descrever relações sociais sem pensá-las num contexto histórico. Mészáros, que esteve no Rio de Janeiro esta semana para lançar o livro, conversou com O GLOBO sobre a obra.

No segundo volume de “Estrutural social e formas de consciência”, que está sendo lançado aqui agora, o senhor argumenta que as estruturas sociais e a mudança histórica devem sempre ser pensadas em conjunto. Como exemplo de uma separação indevida dessas duas categorias, o senhor cita o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss, cujas posições teóricas teriam resultado numa visão pessimista do processo histórico. Por que é necessário pensar História e estrutura em conjunto? E o senhor, ao fazer isso, teria então uma visão otimista da História?

ISTVÁN MÉSZÁROS: A base do ser é sempre estruturada, inclusive no mundo natural, mas estou pensando aqui em estruturas humanas. Toda atividade humana é estruturada, e há sempre uma interação ou afecção mútua entre todos os campos da ação humana. Claro que o impacto da arte, da literatura ou da filosofia sobre o desenvolvimento histórico é muito menos direto do que o da economia, mas elas também têm seu tipo próprio de impacto. Há um marxismo vulgar que fala das ideias como consequência mecânica da economia, um mero efeito, mas isso é uma grande falsificação do que Marx pensava. Ele passou a vida, afinal, lutando por certas ideias. Quanto a Lévi-Strauss, ele rejeitava a ideia de processo histórico e chegou a falar do conhecimento histórico como uma mera classificação de diferentes estruturas descontínuas. Nesse sentido, ele não reconhece a existência do progresso nas sociedades humanas. A mudança histórica, no entanto, nunca é simplesmente uma mudança. Ela supõe um certo avanço, estamos sempre nos movendo para frente.

Por que a mudança histórica implica necessariamente um avanço? E haveria então algo como um estágio final da História?

MÉSZÁROS: Não, isso é o que diria um charlatão como Francis Fukuyama. Não há final feliz para a História, ela é sempre um confronto. Quando digo que o avanço é “necessário”, não estou fazendo uma analogia com as leis naturais, como a gravidade. A ideia de inevitabilidade histórica é uma grande fantasia. A necessidade com a qual os seres humanos lidam é estabelecida por certas circunstâncias criadas pelos próprios seres humanos, e é nessa medida que somos capazes de superá-las. Podemos pensar, por exemplo, num contraste entre o feudalismo e o capitalismo por meio do conceito do excedente de trabalho, aquilo que as pessoas produzem além do estritamente necessário para sua sobrevivência. No feudalismo, esse excedente, esse “a mais” era alocado por meio da dominação política direta dos senhores sobre os servos. No capitalismo, o excedente passa a ser extraído economicamente, o que abriu o caminho para formas de produção muito mais desenvolvidas. A extração política do trabalho excedente é muito pouco eficiente, pois exige todo um aparato custoso para garanti-la. Isso foi um dos problemas que levou ao colapso da União Soviética.

Avanço histórico significa para o senhor, em primeiro lugar, aumento de produtividade?

MÉSZÁROS: Claro. Nas sociedades primitivas, onde as pessoas vivem “da mão para a boca”, como dizem os ingleses, você não tem o espaço para a arte e a filosofia que existe em formações mais avançadas. É à medida que o ser humano ultrapassa a mera produção para a própria sobrevivência que pode se dar um processo de expansão cumulativa de sua liberdade.

O projeto civilizatório ideal seria, então, um aumento progressivo da capacidade produtiva?

MÉSZÁROS: Temos que pensar numa mediação entre o ser humano e a natureza. A ideia de crescimento eterno continua a ser a mitologia do nosso tempo. A solução para a crise do capitalismo é sempre pensada como mais crescimento. Existe essa ideia de que o céu é o limite, quando na verdade quem estabelece o limite não é o céu, mas a natureza. Se hoje nos vemos diante de ameaças ambientais consideráveis, no entanto, mais uma vez é preciso reconhecer que está em jogo aí uma atividade humana, e portanto somos capazes, também por nossa ação, de solucionar esses problemas. É ao não se confrontar com os requisitos objetivos da produtividade que o homem é arrastado de volta para a determinação natural. Existe uma fundação natural que não pode ser ignorada, e que se reafirma.

Então também existe um sentido destrutivo da produtividade.

MÉSZÁROS: Todo poder de produção é um poder de destruição. Hoje o ser humano pode de fato mover montanhas, mas com que objetivo? Os tremendos avanços do poder de produção nos colocam ao mesmo tempo diante da possibilidade de extinção do ser humano, de um futuro em que o planeta seja habitado apenas por baratas. Isso se tornou um perigo muito real, que deve ser entendido num contexto de crise e militarização do capitalismo, iniciado ainda no século XIX. Ser otimista a respeito do curso da História, portanto, seria tolo. Mas acredito que o ser humano é capaz de neutralizar esse caminho que leva à sua autodestruição.


 

O Epicuirismo e Estoicismo duas vertentes Filosoficas que influênciou os Gregos em um periodo muito difícil da Grecia.

by osintocaveis on julho 12, 2011

” O Epicurismo já foi definido como a forma inicial do que hoje chamamos de “auto-ajuda”: não há nada a fazer para melhorar o mundo, portanto, tentemos viver o melhor possível….
Painel Histórico
Ao perder sua liberdade política, dominada que fora primeiro pelos macedônios, a seguir pelos romanos, a Grécia antiga sofreu uma alteração profunda nos quadros dentro dos quais vinha desenvolvendo sua experiência cultural e, em particular, sua criação mais arrojada: a especulação filosófica.
Tornando-se parte do império fundado por Filipe da Macedônia e ampliado por seu filho Alexandre, o país passou a integrar um vasto organismo político, verdadeiro mosaico de povos. Tendem a se diluir as distinções entre gregos e orientais, distinções que, então, os primeiros orgulhosamente proclamavam e procuravam preservar.
Heródoto de Halicarnasso, historiador (circa 460 a.C. – 425 a.C.) mostrara que a raiz dessas distinções estava no senso de liberdade política que um grego possuía por pertencer a uma cidade-Estado, cônscia de sua autonomia e de suas tradições, e onde, ao usufruir os direitos de cidadania, ele não estava submetido a nenhum senhor. O abismo entre os gregos do período helênico e os “bárbaros” orientais provinha, segundo Heródoto, da consciência de liberdade que os gregos desenvolveram a partir da peculiaridade de sua organização social e política. Essa consciência de liberdade está ilustrada, pelo historiador, no episódio dos dois espartanos que, por ocasião das Guerras Médicas, se apresentam voluntariamente aos persas para serem sacrificados como expiação pelo assassínio dos embaixadores de Xerxes. Indagados sobre os motivos que levavam Esparta insistia a resistir ao Grande Rei, rejeitando as vantagens da rendição e da submissão, os dois gregos respondem ao persa que os conduzia ao sacrifício: “Tu não podes compreender. Conheces apenas a vida de servidão. Jamais experimentaste a liberdade, para saber se ela é doce ou não. Do contrário, tu nos aconselharias a combater por ela não somente com a lança, mas também com o machado”.
Depois da batalha de Queronéia (338 a.C.), que marca a derrota dos gregos frente à Macedônia, a situação muda completamente. O desaparecimento da autonomia da cidade-estado torna sem sentido qualquer sentimento isolacionista. Mas, pelo fato mesmo de inserir-se no grande organismo político dos macedônios, a cultura grega se difunde, tornando-se patrimônio comum a todos os países mediterrâneos. Começa o chamado período helenístico, no qual, desde a morte de Alexandre até a conquista romana, a cultura grega vai progressivamente se impondo do Egito e da Síria até Roma e Espanha. E se Atenas inicialmente permanece como centro da investigação científica e filosófica, outros focos de atividade intelectual passarão depois a se afirmar, particularmente Alexandria.
No período helenístico as ciências particulares começam a ter desenvolvimento autônomo, despregadas do tronco original da antiga sabedoria filosófica. O século III a.C. é o século de Euclides, de Arquimedes (287-212 a.C.) e de Apolônio de Perga (c. 262 – c.180 a.C.), um esplêndido século, portanto, para as matemáticas e a astronomia. Mas é também o século em que, no museu de Alexandria – cujo bibliotecário é o geógrafo Eratóstenes (275- 194 a.C.) -, ocorre grande desenvolvimento da crítica filosófica e das ciências baseadas na observação. Surge um novo tipo de intelectual, inexistente na fase helênica: o especialista, o erudito. E se isso representa um impulso às especializações científicas, manifesta também o novo rumo que tomara o conhecimento, desde que sua meta deixara de ser o universo político: o da realização subjetiva e pessoal, que acompanha o ideal de ciência pela ciência.
Em busca da serenidade
As novas condições impostas ao mundo grego tornam impossível a participação do indivíduo no governo da polis, que o cidadão helênico conhecera sobretudo na fase democrática. O conhecimento deixa de ser preparação para a atividade política (como fora em Platão), passando a se ocupar do aprimoramento interior do homem. Distanciada das preocupações políticas, a filosofia aspira ao estabelecimento de normas universais para a conduta humana e se propõe a dirigir as consciências: o problema ético torna-se o centro da especulação de diferentes correntes filosóficas.
As éticas helenísticas partem à procura do bem individual, de uma sabedoria que represente a plenitude da realização subjetiva: o alcance da perfeita serenidade interior, independente das circunstâncias. O bem não mais terá o sentido metafísico do Bem de Platão, fundamento das idéias, dos modelos do mundo corpóreo, e, conseqüentemente, sustentação tanto do sujeito do conhecimento e da ação quanto da própria realidade objetiva. O bem das éticas helenísticas terá acepção estritamente existencial: é o bem como sinônimo do que é bom para o indivíduo, para a vida de cada homem.
Para traçar o caminho que conduz à serenidade interior, algumas éticas helenísticas – o epicurismo e o estoicismo – partem de uma concepção do universo fundamentada racionalmente. Ao contrário do que propunha o socratismo, epicuristas e estóicos fazem da ciência sobre a natureza das coisas a base para as suas construções morais. Bem diverso será o itinerário prescrito pelo ceticismo, fundado por Pirro de Êlis (360-270 a.C.): à imperturbabilidade de espírito só se chegaria partindo-se da suspensão de qualquer julgamento, renunciando-se a qualquer explicação científica, abandonando-se toda pretensão de alcançar certezas inatingíveis.
Outra corrente de pensamento que se manifesta no período helenístico é o ecletismo. Procurando um critério para a ação que escapasse às disputas das diferentes escolas, essa filosofa pretenderá estabelecer, para além das divergências, um “sentido comum”, um consenso universal. Tal forma de pensar teve larga aceitação na fase romana e Cícero foi seu mais eminente representante.
O caráter de religiosidade, que se tornará evidente no pensamento ocidental a partir do século I d.C., afirma-se antes em centros orientais da cultura helenística, como Alexandria. Manifesta-se então acentuada tendência à fusão ou ao sincretismo religioso. Ao mesmo tempo, ocorre o confronto entre duas tradições: a greco-romana, formulada através de filosofias dotadas de alto índice de racionalização, e a da religiosidade oriental, fundada – como no judaísmo e no cristianismo – na noção de verdade revelada. Os primeiros efeitos da repercussão do espírito religioso sobre a filosofia manifestam-se nos judeus-alexandrinos (do século II a.C. ao I d.C.), nos neopitagóricos e platônicos pitagorizantes (entre o século I a.C. e III d.C.) e nos últimos defensores do pensamento e da religião do politeísmo: os neoplatônicos do século II ao século VI d.C.
O neoplatonismo constituiu a mais perfeita manifestação de sincretismo religioso dessa época e teve em Plotino (204-270) seu principal representante. Para o neoplatonismo – canto de cisne do pensamento da antiga Grécia -, todos os seres resultariam de sucessivas emanações do Um, divino, transcendente e inefável. Antes de se calar, a filosofia grega medita sobre um último tema: o silêncio do Ser.
O jardim da amizade e do prazer
Nascido em 341 a.C., em Atenas ou em Samos, Epicuro teria acompanhado, dos catorze aos dezoito anos, os ensinamentos do acadêmico Pânfilo. E, através de Nausífanes de Teo, discípulo de Demócrito (c. 460 – 370 a.C.), teria conhecido as doutrinas desse grande atomista. Durante algum tempo ganhou a vida como professor de gramática. Em seguida deu cursos de filosofia, primeiro em Lâmpsaco, depois em Mitilene e Colofonte. Finalmente regressa a Atenas, por volta de 306 a.C., onde adquire uma pequena casa e abre uma escola de filosofia, que ficará conhecida como o Jardim de Epicuro.
Os alunos não têm em Epicuro um mestre no estilo tradicional: na verdade, formam um grupo de amigos que filosofam juntos. Epicuro exerce influência, não só pelo ensino direto como pela extraordinária personalidade. É um homem bondoso, de natureza terna e amável, que, apesar dos sofrimentos físicos impostos pela doença que o tortura e aos poucos o paralisa, cultiva as amizades, auxilia os irmãos e trata os escravos com civilidade. Por essa razão todos os que o conhecem dificilmente deixam seu convívio.
Epicuro foi intensamente venerado pelos seus primeiros discípulos, grandes admiradores seus. E cerca de dois séculos depois de sua morte – ocorrida em 270 a.C. – ainda será assim exaltado pelo poeta romano Lucrécio, seguidor e expositor de suas idéias: “Foi um deus, sim, um deus, aquele que primeiro descobriu esta maneira de viver que agora se chama sabedoria, aquele que por sua arte nos fez escapar de tais tempestades e de tais noites, para colocar nossa vida numa morada tão calma e tão luminosa”.
As tempestades e a noite a que se refere o poeta Lucrécio significam os temores e as perturbações que agitam o espírito humano e que Epicuro teria ensinado como vencer. “A morada tão calma e tão luminosa” seria a meta proposta pelo epicurismo: a morada da serenidade e do prazer. Com efeito, toda a ética de Epicuro representa um esforço para libertar a alma humana de equívocos ou de infundadas crenças aterrorizadoras. A filosofia, para Epicuro, deveria servir ao homem como instrumento de libertação e como via de acesso à verdadeira felicidade. Esta consistiria na serenidade de espírito que advém da consciência de que é ao homem que compete conseguir o domínio de si mesmo.
O autodomínio – objetivo de toda reflexão filosófica – exige a libertação do jugo das falsas opiniões e a conquista do conhecimento verdadeiro e seguro da realidade e da posição do homem dentro dela. Conseqüentemente, a filosofia pode ser dividida em três partes que se articulam. Em primeiro lugar, a lógica, que permitiria distinguir quais as formas de conhecimento verdadeiro, quais as falsas. Em segundo lugar – com base nas soluções indicadas pela lógica -, uma física que mostrasse a verdadeira estrutura da realidade na qual se insere o homem. A lógica e a física constituiriam, assim, as disciplinas preliminares a possibilitar a descoberta dos fundamentos da ética. Esta seria a terceira parte da filosofia e seu objetivo último, constituindo a chave para abrir as portas da felicidade.
A teoria do conhecimento dos epicuristas (que eles chamavam de canônica) é o empirismo, isto é, reduz toda a origem do conhecimento à experiência sensível. As repetidas experiências dos sentidos, preservadas pela memória, dariam nascimento às antecipações (em grego: prolepsis), equivalentes às noções gerais ou conceitos. Quando se ouve a palavra homem, por exemplo, antecipa-se a presença real e efetiva de um homem, sem que o mesmo esteja sendo apreendido de fato por qualquer dos sentidos. As prolepsis teriam a função de classificar as experiências e fixar seus limites de variação. Seriam em si mesmas verdadeiras, pois simplesmente registram e preservam as diferenças e semelhanças encontradas na experiência sensível.

O Epicurismo já foi definido como a forma inicial do que hoje chamamos de “auto-ajuda”: não há nada a fazer para melhorar o mundo, portanto, tentemos viver o melhor possível….
Painel Histórico
Ao perder sua liberdade política, dominada que fora primeiro pelos macedônios, a seguir pelos romanos, a Grécia antiga sofreu uma alteração profunda nos quadros dentro dos quais vinha desenvolvendo sua experiência cultural e, em particular, sua criação mais arrojada: a especulação filosófica.
Tornando-se parte do império fundado por Filipe da Macedônia e ampliado por seu filho Alexandre, o país passou a integrar um vasto organismo político, verdadeiro mosaico de povos. Tendem a se diluir as distinções entre gregos e orientais, distinções que, então, os primeiros orgulhosamente proclamavam e procuravam preservar.
Heródoto de Halicarnasso, historiador (circa 460 a.C. – 425 a.C.) mostrara que a raiz dessas distinções estava no senso de liberdade política que um grego possuía por pertencer a uma cidade-Estado, cônscia de sua autonomia e de suas tradições, e onde, ao usufruir os direitos de cidadania, ele não estava submetido a nenhum senhor. O abismo entre os gregos do período helênico e os “bárbaros” orientais provinha, segundo Heródoto, da consciência de liberdade que os gregos desenvolveram a partir da peculiaridade de sua organização social e política. Essa consciência de liberdade está ilustrada, pelo historiador, no episódio dos dois espartanos que, por ocasião das Guerras Médicas, se apresentam voluntariamente aos persas para serem sacrificados como expiação pelo assassínio dos embaixadores de Xerxes. Indagados sobre os motivos que levavam Esparta insistia a resistir ao Grande Rei, rejeitando as vantagens da rendição e da submissão, os dois gregos respondem ao persa que os conduzia ao sacrifício: “Tu não podes compreender. Conheces apenas a vida de servidão. Jamais experimentaste a liberdade, para saber se ela é doce ou não. Do contrário, tu nos aconselharias a combater por ela não somente com a lança, mas também com o machado”.
Depois da batalha de Queronéia (338 a.C.), que marca a derrota dos gregos frente à Macedônia, a situação muda completamente. O desaparecimento da autonomia da cidade-estado torna sem sentido qualquer sentimento isolacionista. Mas, pelo fato mesmo de inserir-se no grande organismo político dos macedônios, a cultura grega se difunde, tornando-se patrimônio comum a todos os países mediterrâneos. Começa o chamado período helenístico, no qual, desde a morte de Alexandre até a conquista romana, a cultura grega vai progressivamente se impondo do Egito e da Síria até Roma e Espanha. E se Atenas inicialmente permanece como centro da investigação científica e filosófica, outros focos de atividade intelectual passarão depois a se afirmar, particularmente Alexandria.
No período helenístico as ciências particulares começam a ter desenvolvimento autônomo, despregadas do tronco original da antiga sabedoria filosófica. O século III a.C. é o século de Euclides, de Arquimedes (287-212 a.C.) e de Apolônio de Perga (c. 262 – c.180 a.C.), um esplêndido século, portanto, para as matemáticas e a astronomia. Mas é também o século em que, no museu de Alexandria – cujo bibliotecário é o geógrafo Eratóstenes (275- 194 a.C.) -, ocorre grande desenvolvimento da crítica filosófica e das ciências baseadas na observação. Surge um novo tipo de intelectual, inexistente na fase helênica: o especialista, o erudito. E se isso representa um impulso às especializações científicas, manifesta também o novo rumo que tomara o conhecimento, desde que sua meta deixara de ser o universo político: o da realização subjetiva e pessoal, que acompanha o ideal de ciência pela ciência.
Em busca da serenidade
As novas condições impostas ao mundo grego tornam impossível a participação do indivíduo no governo da polis, que o cidadão helênico conhecera sobretudo na fase democrática. O conhecimento deixa de ser preparação para a atividade política (como fora em Platão), passando a se ocupar do aprimoramento interior do homem. Distanciada das preocupações políticas, a filosofia aspira ao estabelecimento de normas universais para a conduta humana e se propõe a dirigir as consciências: o problema ético torna-se o centro da especulação de diferentes correntes filosóficas.
As éticas helenísticas partem à procura do bem individual, de uma sabedoria que represente a plenitude da realização subjetiva: o alcance da perfeita serenidade interior, independente das circunstâncias. O bem não mais terá o sentido metafísico do Bem de Platão, fundamento das idéias, dos modelos do mundo corpóreo, e, conseqüentemente, sustentação tanto do sujeito do conhecimento e da ação quanto da própria realidade objetiva. O bem das éticas helenísticas terá acepção estritamente existencial: é o bem como sinônimo do que é bom para o indivíduo, para a vida de cada homem.
Para traçar o caminho que conduz à serenidade interior, algumas éticas helenísticas – o epicurismo e o estoicismo – partem de uma concepção do universo fundamentada racionalmente. Ao contrário do que propunha o socratismo, epicuristas e estóicos fazem da ciência sobre a natureza das coisas a base para as suas construções morais. Bem diverso será o itinerário prescrito pelo ceticismo, fundado por Pirro de Êlis (360-270 a.C.): à imperturbabilidade de espírito só se chegaria partindo-se da suspensão de qualquer julgamento, renunciando-se a qualquer explicação científica, abandonando-se toda pretensão de alcançar certezas inatingíveis.
Outra corrente de pensamento que se manifesta no período helenístico é o ecletismo. Procurando um critério para a ação que escapasse às disputas das diferentes escolas, essa filosofa pretenderá estabelecer, para além das divergências, um “sentido comum”, um consenso universal. Tal forma de pensar teve larga aceitação na fase romana e Cícero foi seu mais eminente representante.
O caráter de religiosidade, que se tornará evidente no pensamento ocidental a partir do século I d.C., afirma-se antes em centros orientais da cultura helenística, como Alexandria. Manifesta-se então acentuada tendência à fusão ou ao sincretismo religioso. Ao mesmo tempo, ocorre o confronto entre duas tradições: a greco-romana, formulada através de filosofias dotadas de alto índice de racionalização, e a da religiosidade oriental, fundada – como no judaísmo e no cristianismo – na noção de verdade revelada. Os primeiros efeitos da repercussão do espírito religioso sobre a filosofia manifestam-se nos judeus-alexandrinos (do século II a.C. ao I d.C.), nos neopitagóricos e platônicos pitagorizantes (entre o século I a.C. e III d.C.) e nos últimos defensores do pensamento e da religião do politeísmo: os neoplatônicos do século II ao século VI d.C.
O neoplatonismo constituiu a mais perfeita manifestação de sincretismo religioso dessa época e teve em Plotino (204-270) seu principal representante. Para o neoplatonismo – canto de cisne do pensamento da antiga Grécia -, todos os seres resultariam de sucessivas emanações do Um, divino, transcendente e inefável. Antes de se calar, a filosofia grega medita sobre um último tema: o silêncio do Ser.
O jardim da amizade e do prazer
Nascido em 341 a.C., em Atenas ou em Samos, Epicuro teria acompanhado, dos catorze aos dezoito anos, os ensinamentos do acadêmico Pânfilo. E, através de Nausífanes de Teo, discípulo de Demócrito (c. 460 – 370 a.C.), teria conhecido as doutrinas desse grande atomista. Durante algum tempo ganhou a vida como professor de gramática. Em seguida deu cursos de filosofia, primeiro em Lâmpsaco, depois em Mitilene e Colofonte. Finalmente regressa a Atenas, por volta de 306 a.C., onde adquire uma pequena casa e abre uma escola de filosofia, que ficará conhecida como o Jardim de Epicuro.
Os alunos não têm em Epicuro um mestre no estilo tradicional: na verdade, formam um grupo de amigos que filosofam juntos. Epicuro exerce influência, não só pelo ensino direto como pela extraordinária personalidade. É um homem bondoso, de natureza terna e amável, que, apesar dos sofrimentos físicos impostos pela doença que o tortura e aos poucos o paralisa, cultiva as amizades, auxilia os irmãos e trata os escravos com civilidade. Por essa razão todos os que o conhecem dificilmente deixam seu convívio.
Epicuro foi intensamente venerado pelos seus primeiros discípulos, grandes admiradores seus. E cerca de dois séculos depois de sua morte – ocorrida em 270 a.C. – ainda será assim exaltado pelo poeta romano Lucrécio, seguidor e expositor de suas idéias: “Foi um deus, sim, um deus, aquele que primeiro descobriu esta maneira de viver que agora se chama sabedoria, aquele que por sua arte nos fez escapar de tais tempestades e de tais noites, para colocar nossa vida numa morada tão calma e tão luminosa”.
As tempestades e a noite a que se refere o poeta Lucrécio significam os temores e as perturbações que agitam o espírito humano e que Epicuro teria ensinado como vencer. “A morada tão calma e tão luminosa” seria a meta proposta pelo epicurismo: a morada da serenidade e do prazer. Com efeito, toda a ética de Epicuro representa um esforço para libertar a alma humana de equívocos ou de infundadas crenças aterrorizadoras. A filosofia, para Epicuro, deveria servir ao homem como instrumento de libertação e como via de acesso à verdadeira felicidade. Esta consistiria na serenidade de espírito que advém da consciência de que é ao homem que compete conseguir o domínio de si mesmo.
O autodomínio – objetivo de toda reflexão filosófica – exige a libertação do jugo das falsas opiniões e a conquista do conhecimento verdadeiro e seguro da realidade e da posição do homem dentro dela. Conseqüentemente, a filosofia pode ser dividida em três partes que se articulam. Em primeiro lugar, a lógica, que permitiria distinguir quais as formas de conhecimento verdadeiro, quais as falsas. Em segundo lugar – com base nas soluções indicadas pela lógica -, uma física que mostrasse a verdadeira estrutura da realidade na qual se insere o homem. A lógica e a física constituiriam, assim, as disciplinas preliminares a possibilitar a descoberta dos fundamentos da ética. Esta seria a terceira parte da filosofia e seu objetivo último, constituindo a chave para abrir as portas da felicidade.
A teoria do conhecimento dos epicuristas (que eles chamavam de canônica) é o empirismo, isto é, reduz toda a origem do conhecimento à experiência sensível. As repetidas experiências dos sentidos, preservadas pela memória, dariam nascimento às antecipações (em grego: prolepsis), equivalentes às noções gerais ou conceitos. Quando se ouve a palavra homem, por exemplo, antecipa-se a presença real e efetiva de um homem, sem que o mesmo esteja sendo apreendido de fato por qualquer dos sentidos. As prolepsis teriam a função de classificar as experiências e fixar seus limites de variação. Seriam em si mesmas verdadeiras, pois simplesmente registram e preservam as diferenças e semelhanças encontradas na experiência sensível.

A fonte da verdade
Depois que se possui um número suficientemente grande de prolepsis, podem-se formar juízos, verdadeiros ou falsos. A verdade de um juízo pode ser provada, segundo os epicuristas, de duas maneiras. Quando o juízo diz respeito a algo observável pelos sentidos, o critério é pura e simplesmente a concordância entre o juízo e os fenômenos sensíveis correspondentes. O segundo critério de verificação da verdade de uma proposição refere-se aos juízos sobre fenômenos não passíveis de observação através dos sentidos. Nesse caso diz-se que uma certa proposição é verdadeira se não entrar em contradição com outros dados fornecidos pela experiência (critério da não-infirmação). Os fenômenos adotados como prova são apenas signos de uma realidade invisível. Por exemplo, segundo a doutrina atomista, adotada por Epicuro, “todos os corpos, por mais compactos que sejam, possuem interstícios vazios dentro deles”. Esse juízo não é atestado diretamente pelos sentidos; mas, se não for admitido como verdadeiro, também não seria verdade que “a água destila através das rochas”, ou que “o calor e o frio passam através das paredes”.
A conjugação do conhecimento sensível e do conhecimento racional permite a Epicuro justificar sua adesão ao atomismo criado por Leucipo (meados do século V a.C.) e Demócrito (c. 470 – c. 370 a.C.). Com efeito, se os sentidos atestam o movimento como uma evidência, seria verdadeira, graças ao critério da não-infirmação, a teoria atomista, que apresenta uma explicação racional para o movimento, afirmando que tudo é constituído de átomos (invisíveis) que se movem no vazio.
Como os anteriores atomistas, Epicuro considera os átomos como infinitos em número, indivisíveis fisicamente (insecáveis) e imensamente pequenos (sua variação de tamanho estaria situada aquém do limiar de percepção); além disso, seriam móveis por si mesmos, pois o vazio não ofereceria qualquer resistência à locomoção. Leucipo e Demócrito haviam afirmado que os átomos, materialmente idênticos, diferiam uns dos outros apenas pela forma, pelo tamanho, pela posição ou, quando constituíam conjuntos, pelo arranjo. Epicuro, porém, introduz uma nova distinção: os átomos seriam diferentes também quanto ao peso. Os primeiros atomistas consideravam o peso uma resultante do tamanho dos átomos: os maiores, mais sujeitos aos impactos dos outros, locomovem-se com mais dificuldade e tendem a ocupar o centro dos agrupamentos de átomos, comportando-se como mais pesados. Ao contrário, Epicuro considera o peso um atributo inerente aos átomos, concebendo, portanto, um peso absoluto e não relativo. E devido ao peso é que os átomos, num momento inicial, são imaginados por Epicuro como “caindo”; mas, situados dentro do vazio, teriam que desenvolver, nessa “queda”, trajetórias necessariamente paralelas. Isso significa que os átomos jamais se chocariam – dando origem aos engates e aos torvelinhos indispensáveis à constituição das coisas e dos mundos – se algum fator não viesse interferir naquele paralelismo das trajetórias. Afastando-se do rígido mecanicismo da física dos primeiros atomistas, Epicuro introduz então a noção de desvio (clinamen): sem nenhuma razão mecânica, os átomos, em qualquer momento de suas trajetórias verticais, podem se desviar e se chocar. O clinamen aparece, assim, como a introdução do arbítrio e do imponderável num jogo de forças estritamente mecânico: é a ruptura da necessidade, do plano da física, para acolher a contingência.
A justificativa do clinamen está garantida pela canônica de Epicuro: a evidência imediata revela que existe um ser – o homem – que, embora constituído de átomos (como todos os seres do universo), manifesta a possibilidade de arbítrio, pelo qual altera os rumos de sua vida ou, pelo menos, pode modificar sua atitude interior diante dos acontecimentos. A existência da vontade livre seria, portanto, o fato experimentado que, através do critério da não-infirmação, encontraria explicação no desvio que deve também ocorrer nas trajetórias atômicas. Inconcebível seria admitir que um composto (o homem) apresentasse atributos inexistentes em seus componentes (os átomos). A doutrina do clinamen serve, assim, para fundamentar, dentro de um universo de coisas regido pelo fatalismo e pela necessidade mecânica, a espontaneidade da alma, a autonomia da vontade, a liberdade humana. Na física Epicuro situa as premissas de sua ética.
A verdadeira sabedoria
Com sua concepção materialista da realidade, Epicuro pretende libertar o homem dos dois temores que o impediriam de encontrar a felicidade: o medo dos deuses e o temor da morte. Os deuses existem, afirma Epicuro, mas seriam seres perfeitos que não se misturam às imperfeições e às vicissitudes da vida humana. Os deuses viveriam em perfeita serenidade rios es aços que separam os mundos. Sua perfeição suprema constitui o ideal a que aspiram os sábios e deve ser objeto de culto desinteressado; não teria sentido adorá-los de maneira servil, temerosa e interesseira, pois eles desconhecem o mundo imperfeito dos homens e de modo algum atuam sobre ele. Quanto à morte, não há também por que temê-la. Ela não seria mais que a dissolução do aglomerado de átomos que constitui o corpo e a alma. A morte, portanto, não existe enquanto o homem vive e este não existe mais quando ela sobrevém.
A libertação do temor dos deuses e da morte não basta para conduzir o homem à verdadeira felicidade. É necessário ainda que ele se liberte da ânsia incontrolada de prazeres e do incontido pesar pelas dores.
A luminosidade racional da doutrina atomista permitiria ao homem afastar os sombrios temores que lhe intranqüilizavam a alma, bem como reconhecer-se como um ser perfeitamente integrado na natureza universal. Enquanto ser natural, o homem – como os animais – pauta sua vida, espontaneamente, pela procura do prazer e pela fuga da dor. Mas a verdadeira sabedoria está além desse comportamento natural e espontâneo: sábio é reconhecer que há diferentes tipos de prazer, para saber selecioná-los e, dosá-los. O hedonismo epicurista reconhece que o ponto de partida para a felicidade está ria satisfação dos desejos físicos, naturais. Mas essa satisfação, para não acarretar sofrimentos, deve ser contida, reduzindo-se ao estritamente necessário: sábio é aquele que “com um pouco de pão e de água rivaliza com Júpiter em felicidade”.
Epicuro considera que todo prazer é basicamente um prazer corpóreo. Mas, ao contrário dos cirenaicos – corrente hedonista que se pretendia herdeira de Sócrates -, Epicuro afirma que o prazer que o homem deve buscar não é o da pura satisfação física imediata e mutável, o “prazer do movimento”. Para Epicuro, o prazer que deve nortear a conduta humana – o prazer com dimensão ética e não apenas natural – é o “prazer do repouso”, constituído pela ataraxia (ausência de perturbação) e pela aponia (ausência de dor). Ambas podem ser alcançadas na medida em que o homem, através do autodomínio, busque a auto-suficiência que o torne um ser que tem em si mesmo sua própria lei, um ser autárquico, capaz de ser feliz e sereno independentemente das circunstâncias. Para tanto, deve renunciar aos prazeres que possam ser fontes de aflição e aceitar a dor quando ela é portadora de um bem futuro (que nunca deve ser confundido com a suposta vida depois da morte). É necessário, portanto, fazer um cálculo utilitário dos prazeres e das dores possíveis, como primeiro passo para a conquista da felicidade. Epicuro, porém, reconhece que as circunstâncias podem impor a dor como um fato inelutável. Sabedoria será então utilizar a liberdade interior e, através do artifício que essa liberdade permite, permanecer sereno e feliz. À dor presente, ensina Epicuro, pode-se escapar por meio da lembrança dos prazeres passados ou pela expectativa de prazeres futuros. Interiormente, o homem é livre para jogar, à vontade, com as imagens (eidola) que seriam resquícios corpóreos (formados de átomos mais tênues) de suas sensações. Epicuro – ele próprio um homem doente e vítima de terríveis sofrimentos físicos, ele próprio um grego sem liberdade política – teria dado a demonstração dessa técnica interior de evasão, capaz de permitir ao homem enfrentar serenamente as mais adversas circunstâncias. Seu hedonismo altamente espiritualizado, que fazia da contemplação intelectual e das delícias da amizade os mais elevados prazeres, legou às éticas posteriores uma lição que nunca mais será esquecida: a de que o homem também pode se sustentar de recordações e de esperanças.
A poesia do materialismo
Na própria Antiguidade o epicurismo não sofreu reformulações. Os seguidores imediatos de Epicuro limitaram-se a cultuar a memória do mestre e a preservar e propagar suas idéias.
Segundo Diógenes Laércio, a obra de Epicuro compreendia cerca de trezentos títulos, dentre os quais só Sobre a Natureza compreenderia 37 livros. Dessa grande quantidade de escritos, todavia, restou muito pouco: o próprio Diógenes Laércio conservou uma Carta a Heródoto (que trata da física), uma Carta a Pítocles (de autenticidade contestada e tratando dos meteoros) e uma Carta a Meneceu (sobre moral); Diógenes Laércio faz seguir essas cartas de quarenta sentenças atribuídas a Epicuro e conhecidas sob a denominação de Máximas Principais. Em 1888, K. Wotke descobriu, num manuscrito da biblioteca do Vaticano, 81 máximas de Epicuro, algumas já inseridas nas Máximas Principais. Por outro lado, as escavações realizadas em Ilerculanum trouxeram à luz uma biblioteca epicurista, contendo inclusive o Sobre a Natureza de Epicuro.
Mas, se os escritos de Epicuro só são conhecidos de forma fragmentária, existe uma outra fonte para o conhecimento de sua doutrina: o poema Da Natureza das Coisas, de seu seguidor Lucrécio, que viveu em Roma entre os anos 99 e 55 a.C.
Pouco se sabe da vida de Tito Caio Lucrécio. Nasceu provavelmente em Roma, onde foi educado. Quando conheceu a doutrina de Epicuro – “honra da raça grega” -, Lucrécio deslumbrou-se com seus ensinamentos, que lhe pareceram a chave para desvendar os segredos do universo e para abrir as portas da felicidade humana. Seguindo as pegadas do mestre, Lucrécio propõe-se a tarefa de libertar os romanos da religião que os oprimia e que sobre eles pesava com mais força do que outrora pesara sobre os gregos.
Além de servir de fonte para conhecimento da doutrina epicurista, o poema de Lucrécio tem imensa importância literária: através dele Lucrécio se revela um dos maiores poetas da língua latina.
Lucrécio matou-se em 55 a.C. Seu poema, escrito em intervalos de ataques de loucura, ficou inacabado e foi completamente revisado, para publicação, segundo algumas fontes, por um irmão de Cícero chamado Quinto. Segundo outras fontes, aquele trabalho foi feito pelo próprio Cícero, que tinha pelo poeta do materialismo profunda admiração.
A Consciência Infeliz
“Estoicismo” tornou-se expressão consagrada no vocabulário atual, com o sentido de “firmeza e serenidade diante das adversidades”. Esta doutrina filosófica é a expressão (tanto como do epicurismo, do qual é contemporânea) de um tipo normativo de vida ecumênica conforme à razão e de aceitação espontânea da fatalidade de leis universais. A escola representa um retrocesso em relação às conquistas anteriores de reflexão filosófica sobre o mundo, compreendendo o período pré-socrático e a teoria atomística de Leucipo e Demócrito de Abdera. A divisa latina nihil mirari (não se admirar) cunhada mais tarde pelos estóicos latinos, em contrapartida ao assombro, de que falava Platão, demarca negativamente esse aspecto de acolhida resignada dos acontecimentos universais.
O “não assombrar-se”do estóico, atitude vizinha à da incompreensão, projeta no espaço e no tempo histórico esse sentimento trágico da vida que Pascal traduz como oposição entre a idéia de verdade e sua impotência para prová-la, revivendo o drama da condição humana que os existencialistas modernos exploram até o desespero. O drama da consciência infeliz, característica do modelo estóico, tanto quanto do epicurista e mesmo do existencialismo do século XX reflete um época histórica perpassada por grave crise, com falta de liberdade política, grande fatalidade e, não raro, tragédia física pessoal como uma severa enfermidade (caso de Demócrito). No existencialismo, por exemplo, o drama subjetivo moral reside em ser-se “fiel a si mesmo”, centra-se numa exaltação da individualidade – retrato de uma capitulação em atuar na prática política em busca de transformação –, cuja existência é essencial e constitutiva.
A consciência estóica só se afirma pela cisão do eu em relação ao mundo: busca a certeza e a segurança fora de toda a ligação com outros seres humanos, separando-se das coisas e do conhecimento das coisas, puramente negativas, sobretudo fixada na negatividade, a consciência de si do estóico se transforma em ceticismo e a liberdade do estóico não é senão um estado de consciência infeliz.
A crise existencial dos estóicos oscila entre situações excludentes, limitativas, de um estado a outro no círculo mágico, repetitivo, de todas as coisas e de todo os seres encontra ainda um parentesco curioso nas exortações de Zaratustra, de Nietzsche: a palingenesia, o eterno retorno, do mundo e dos seres na fatal trajetória de nascimento, morte e ressurreição, sem termo nem descanso. “A vida que vives agora, haverás de vivê-la inúmeras vezes; cada dor, cada alegria, cada pensamento e cada suspiro…tudo voltará de novo e tudo na mesma ordem”.
Nunca, ao certo, se precisaram os motivos que tão rapidamente fizeram retroagir os ideais humanísticos aos níveis desse estado de consciência dilacerada de que são exemplo as tendências éticas que se manifestaram, concomitantemente, à crise do mundo helenístico – a sociedade escravista em dissolução – dentre elas o estoicismo e o epicurismo.
Em suma, a decadência das instituições gregas, a perda dos valores éticos e dos deuses tutelares, como reflexo da tragédia econômica e política de lutas externas e intestinas entre as facções constituem o quadro real dessa fase helenística da história que reserva ao estóico desamparado a única saída de salvação: uma fuga da realidade do mundo na forma de uma cisão esquizofrênica do eu com o mundo… As tragédias são enormes, a Grécia perdeu sua autonomia, dominada pelos macedônios e, a seguir pelos romanos, a tirania impera e o espaço político está ocupado por estrangeiros ou por uma classe social que não me escuta. Que fazer? Buscar a felicidade ou a ataraxia, a imperturbabilidade, em isolamento da realidade.
No século XIX alguns arqueólogos descobriram em Enoanda, atual Turquia, os restos de uma muralha, com uma inscrição. Dela constavam trechos de ensinamento que Diógenes de Enoanda, discípulo de Epicuro, gravou para disponibilizar a todos quantos passassem por ali, fosse homem, mulher ou criança, de qualquer nacionalidade, o que seria um resumo da sabedoria humana em quatro frases, uma prescrição médica para a alma, um TETRAPHARMAKON que dizia:
1) Não há nada a temer quanto aos deuses;
2) Não há necessidade de temer a morte;
3) A Felicidade é possível;
4) Podemos escapar à dor.
Estoicismo
Marco Túlio Cícero
Em janeiro de 49 a.C., Júlio César decidiu-se por atravessar o Rubicão (alea jacta est), gesto que foi a gosta d’água no desencadeamento da guerra civil que o levaria a dominar todo o império. Venceu Pompeu em Farsala, instalou Cleópatra no trono do Egito, reorganizou o Oriente e derrotou os últimos adeptos do segundo triúnviro na África, em 46 a.C., e na Espanha, um ano depois. De volta a Roma em 45 a.C., começou a governar como déspota absoluto e tratou de eliminar os últimos adversários. Não suspeitava que isso teria importantes conseqüências para a história da filosofia.
Entre os adversários perseguidos estava Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), senador e figura proeminente da política romana nos anos anteriores. Obrigado a deixar os negócios públicos, Cícero recolheu-se à vida privada e retomou a meditação filosófica, de que já se ocupara num primeiro exílio, por volta de 51 a.C. O resultado foi um conjunto de obras, escritas em aproximadamente dois anos e que versavam sobre os mais variados assuntos: Sobre os Fins, Controvérsias Tusculanas e Sobre os Deveres tratam de problemas éticos; Os Tópicos e Os Acadêmicos abordam questões lógicas; A Natureza dos Deuses, Sobre a Arte Adivinhatória e Sobre o Destino são dedicados a temas da física.
Do ponto de vista da filosofia, essas são as principais obras escritas por Cícero no retiro forçado por César e vinham juntar-se a Sobre o Orador, escrito em 55 a.C., A República, redigida em 51 a.C., e Sobre as Leis, provavelmente da mesma época.
Esse conjunto de obras desempenharia papel de primeiro plano na história do pensamento porque fazia do latim um idioma filosófico. Pouco antes, Lucrécio tinha escrito o poema Sobre a Natureza, mas a obra não foi publicada senão após a morte do poeta e, ao que tudo indica, sob os cuidados de Cícero.
Apesar desse valor histórico, as obras de Cícero não contêm um pensamento original, limitando-se a amalgamar diferentes teorias filosóficas gregas. Cícero foi um típico eclético, discutindo os argumentos das diferentes doutrinas gregas correntes na época, sem vincular-se inteiramente a nenhuma.
Essas correntes ele tinha conhecido quando, na juventude, estudou em Atenas, antes de tornar-se conhecido advogado e homem público. Foi discípulo e amigo de epicuristas, estóicos, peripatéticos e acadêmicos. De todos eles Cícero retirou algumas idéias e compôs uma síntese que, além da importância pela criação de um vocabulário filosófico latino, constitui fonte de estudo de boa parte do pensamento clássico.
No que diz respeito às suas próprias posições doutrinárias, Cícero, em teoria do conhecimento, opôs-se tanto ao ceticismo radical de Pirro de Elis (360 – 270 a.C.) quanto ao dogmatismo extremado. Defendeu como critério de verdade o probabilismo do consenso universal, isto é, aquela posição que acha possível ao homem chegar a algum conhecimento das coisas, sem, no entanto atingir a verdade absoluta. A verdade estaria naquilo que pode ser aceito por todos. As razões dessa posição são colocadas menos num plano puramente lógico do que no terreno das necessidades práticas do homem. Para Cícero, o problema do conhecimento não pode ser solucionado exclusivamente em sua estrutura interna. O homem necessita, todavia, admitir como verdadeiras algumas noções sem as quais não é possível manter a coesão da sociedade.
Em moral, Cícero adere às doutrinas estóicas sem, entretanto, aceitar todo o rigor da concepção segundo a qual o exercício da virtude basta-se a si mesmo e consiste na conformidade da conduta humana às leis racionais da natureza.
Aceita essas idéias, mas exige que tais normas sejam validadas pelo consenso universal. Esse consenso universal articula-se em torno de algumas idéias que dão fundamento à vida moral e social, principalmente a da existência de Deus e sua providência. Tais noções seriam comprovadas pela consciência natural dos homens e pela constatação de que na natureza os fenômenos organizam-se em torno de fins, os quais supõem a existência de um fim último de todas as coisas. Outra idéia com a mesma função de fundamentar a vida social e moral é a da essência espiritual e divina da alma e sua imortalidade. Essa idéia encontrar-se-ia confirmada na preocupação do homem com sua vida futura.
Os estóicos
Depois de Cícero ter iniciado a história da filosofia em língua latina, formulando sua síntese eclética, o movimento de idéias mais importante dentro do pensamento romano foi o desenvolvimento das doutrinas estóicas, também originárias da Grécia, como o epicurismo e o ecletismo.
A escola estóica foi fundada por Zenão de Cicio (336 – 264 a.C.) e continuada por Cleanto de Assos (331 – 232 a.C.) e Crisipo de Solis (280 – 210 a.C). Posteriormente, a escola transformou-se, tendendo para uma posição eclética, com Panécio de Rodes (185 – 112 a.C.) e Possidônio de Apaméia (135 – 51 a.C.).
O estoicismo grego propõe uma imagem do universo segundo a qual tudo o que é corpóreo é semelhante a um ser vivo, no qual existiria um sopro vital (pneuma), cuja tensão explicaria a junção e interdependência das partes. No seu conjunto, o universo seria igualmente um corpo vivo provido de um sopro ígneo (sua alma), que reteria as partes e garantiria a coesão do todo. Essa alma é identificada, por Zenão, à razão, e assim o mundo seria inteiramente racional. A Razão Universal (Logos), que tudo penetra e comanda, tende a eliminar todo tipo de irracionalidade, tanto na natureza, quanto na conduta humana, não havendo lugar no universo para o acaso ou a desordem.
A racionalidade do processo cósmico manifesta-se na idéia de ciclo, que os estóicos adotam e defendem com rigor. Herdeiros do pensamento de Heráclito de Éfeso (séc. VI a.C.), os estóicos concebem a história do mundo como feita por sucessão periódica de fases, culminando na absorção de todas as coisas pelo Logos, que é Fogo e Zeus. Completado um ciclo, começa tudo de novo: após a conflagração universal, o eterno retorno.
Tudo o que existe é corpóreo e a própria razão identifica-se com algo material, o fogo. O incorpóreo reduz-se a meios inativos e impassíveis, como o espaço e o vazio; ou então àquilo que se pode pensar sobre as coisas, mas não às próprias coisas.
Nesse universo corpóreo e dirigido pelo fatalismo dos ciclos sempre idênticos, tudo existe e acontece segundo predeterminação rigorosa porque racional. Governada pelo Logos, a natureza é por isso justa e divina e os estóicos identificam a virtude moral com o acordo profundo do homem consigo mesmo e, através disso, com a própria natureza, que é intrinsecamente razão. Esse acordo consigo mesmo é o que Zenão chama “prudência” e dela decorrem todas as demais virtudes, como simples aspectos ou modalidades.
As paixões são consideradas pelos estóicos como desobediências à razão e podem ser explicadas como resultantes de causas externas às raízes do próprio indivíduo; seriam, como já haviam mostrado os cínicos, devidas a hábitos de pensar adquiridos pela influência do meio e da educação. É necessário ao homem desfazer-se de tudo isso e seguir a natureza, ou seja, seguir a Deus e à Razão Universal, aceitando o destino e conservando a serenidade em qualquer circunstância, mesmo na dor e na adversidade.
Uma nova lógica
Os estóicos gregos não se limitaram a formular uma física e uma ética. Elaboraram também uma teoria do conhecimento de acentuada originalidade. As três formariam um conjunto sistemático que expressaria, no plano do conhecimento, a mesma racionalidade encontrada na natureza.
A teoria do conhecimento consiste, para os estóicos, em vincular estreitamente a certeza e a ciência ao plano do conhecimento sensível. A base de qualquer conhecimento seriam as impressões recebidas pelos sentidos; mas já o nível do sensível estaria penetrado pela razão, sendo portanto predisposto à sistematização pela inteligência.
Ao lado das coisas sensíveis, os estóicos distinguem os “exprimíveis”, isto é, aquilo que se pode pensar e dizer sobre as coisas. Os “exprimíveis” seriam objeto da dialética, disciplina que se ocuparia dos enunciados verdadeiros ou falsos a respeito das coisas, e não sobre as próprias coisas.
Os mais simples enunciados, segundo os estóicos, são compostos por um sujeito (expresso por um substantivo ou um pronome) e um atributo (expresso por um verbo). Esses enunciados distinguem-se, assim, das proposições da lógica aristotélica, que estabelecem relações entre conceitos (por exemplo: “o homem é um animal racional”). Na lógica estóica, o sujeito é sempre singular (alguém, Pedro, etc.) e o atributo indica sempre algo que ocorre com o sujeito. As ligações entre os enunciados, portanto, nunca assumem o caráter de juízo categórico, permanecendo como relacionamento entre eventos, cada qual expresso por uma proposição simples (por exemplo: “Está claro, é dia”).
Os estóicos distinguem cinco tipos de juízos compostos que reúnem os enunciados simples. O juízo hipotético exprime relação entre antecedente e conseqüente (“Se há fumaça, há fogo”). O juízo conjuntivo simplesmente justapõe fatos (“É dia, está claro”). O juízo disjuntivo separa os enunciados, de modo que só um deles pode ser verdadeiro (“Ou é dia, ou é noite”). O juízo causal exprime relação de causa e efeito (“Está claro porque é dia”). Finalmente, o quinto tipo de juízo expressa a idéia de mais e menos (“Fica menos claro quando é mais noite”).
Sêneca – A medicina da alma
Não foi a lógica dos estóicos gregos, nem mesmo sua teoria do mundo físico, que sobretudo atraiu o interesse dos estóicos romanos. Foi antes sua moral da resignação, sobretudo nos aspectos religiosos que ela permitia desenvolver.
O primeiro representante do estoicismo romano, sem contar as idéias estóicas que se encontram no ecletismo de Cícero, foi Lucius Annaeus Seneca, nascido em Córdoba (Espanha), aproximadamente quatro anos antes da era cristã. Era filho de Annaeus Seneca (55 a.C.-39 a.D.) – conhecido como Sêneca, o Velho -, que teve renome como retórico e do qual restou uma obra escrita (Declamações). O futuro filósofo Sêneca foi educado em Roma, onde estudou a retórica ligada à filosofia. Em pouco tempo tornou-se famoso como advogado e ascendeu politicamente, passando a ser membro do senado romano e depois nomeado questor.
O triunfo político, no entanto, não se fazia sem conflitos e o renome de Sêneca suscitou a inveja do imperador Calígula, que pretendeu desfazer-se dele pelo assassinato. Sêneca, contudo, foi salvo por sua saúde frágil; julgava-se que ele morreria muito cedo, de morte natural. O próprio Calígula é que faleceria logo depois e Sêneca pôde continuar vivendo em relativa tranqüilidade. Não duraria esse período muito tempo. Em 41 d.C: foi desterrado para a Córsega, sob acusação de adultério, supostamente praticado com Júlia Livila, sobrinha do novo imperador Cláudio César Germânico. Na Córsega, Sêneca passaria quase dez anos em grande privação material.
Em 49 d.C., Messalina, primeira esposa do imperador Cláudio e responsável pelo exílio de Sêneca, caiu em desgraça e foi condenada à morte. O imperador Cláudio casou-se com Agripina e esta mandou chamar Sêneca para educar seu filho Nero. Em 54 d.C., quando Nero se torna imperador, Sêneca passa a ser seu principal conselheiro. Esse período estende-se até 62 d.C., ano em que sua estrela começa a perder o brilho junto ao despótico soberano. Sêneca deixa a vida pública e sofre a perseguição de Nero, que acaba por condená-lo ao suicídio, em 65 d.C.
As Cartas Morais de Sêneca, escritas entre os anos 63 e 65 e dirigidas a Lucílio, misturam elementos epicuristas com idéias estóicas e contêm observações pessoais, reflexões sobre a literatura e crítica satírica dos vícios comuns na época. Entre os seus doze Ensaios Morais, destacam-se Sobre a Clemência, cautelosa advertência a Nero sobre os perigos da tirania, Da Brevidade da Vida, análise das frivolidades nas sociedades corruptas, e Sobre a Tranqüilidade da Alma, que tem como assunto o problema da participação na vida pública. As Questões Naturais expõem a Física estóica enquanto vinculada aos problemas éticos.
Além dessas obras propriamente filosóficas, Sêneca escreveu ainda nove tragédias e uma obra-prima da sátira latiria, Apolokocintosis, que ridiculariza Nero e suas pretensões à divindade.
Todas essas obras revelam que Sêneca foi, sobretudo, um moralista. A filosofia é para ele uma arte da ação humana, uma medicina dos males da alma e uma pedagogia que forma os homens para o exercício da virtude. O centro da reflexão filosófica deve ser, portanto, a ética; e a física e a lógica devem ser consideradas como seus prelúdios.
Sua concepção do mundo repete as idéias dos estóicos gregos sobre a estrutura puramente material da natureza. Contudo, a razão universal dos gregos Cleanto e Zenão transforma-se em Sêneca num deus pessoal, que é sabedoria, previsão e vigilância, sempre em ação para governar o mundo e realizar uma ordem maravilhosa.
Marco Aurélio – O imperador filósofo
Cronologicamente, o segundo grande representante do estoicismo romano foi Epicteto (c. 50 – 130 ), escravo durante muitos anos e, posteriormente, professor de filosofia. Seu ensino foi recolhido pelo discípulo Ariano de Nicomédia, em oito livros. Chegaram até a atualidade quatro livros inteiros e apenas alguns fragmentos dos restantes.
Grande admirador de Epicteto foi o imperador Marco Aurélio Antonino, que, nas pausas tranqüilas de seu conturbado governo, se dedicou à reflexão filosófica e com isso tornou-se o terceiro e último grande expoente do estoicismo romano.
Marco Aurélio nasceu em 121, no seio de uma família aristocrática, e muito cedo perdeu os pais. Foi então adotado pelo tio, Aurélio Antonino. O tio tornar-se-ia imperador e nomearia Marco Aurélio seu sucessor, em 161.
Aos onze anos de idade, Marco Aurélio conheceu o estoicismo e adotou hábitos de vida austera, recomendados por aquela escola filosófica. Depois dos anos de formação passou a colaborar intimamente com o imperador, seu pai adotivo, ocupando o cargo de cônsul por três vezes. Em 161, Aurélio Antonino faleceu e Marco Aurélio tornou-se imperador.
O governo de Marco Aurélio – que se estendeu por quase vinte anos, até sua morte em 180 – foi perturbado por guerras sangrentas e prolongadas, com as conseqüentes dificuldades internas. Além disso, Roma foi vítima de inundações, tremores de terra e incêndios. Marco Aurélio conseguiu enfrentar todas as dificuldades, tendo sido excelente guerreiro e administrador e, ao mesmo tempo, humanizando profundamente o exercício do poder. Nos poucos momentos que os encargos de governo permitiam, recolhia-se à meditação filosófica e escrevia seus pensamentos em língua grega, que lhe parecia a mais apta a exprimir inquietações intelectuais e morais profundas. As Meditações (como posteriormente ficaram conhecidos aqueles pensamentos) são simples notas, apenas esboçadas.
O conteúdo das Meditações é a filosofia estóica, mas de um estoicismo bastante distante das doutrinas de Zenão, Cleanto e Crisipo. As especulações físicas e lógicas cedem lugar ao caráter prático dos romanos e ao aconselhamento moral. Em Marco Aurélio – como também nas Máximas de Epicteto – a questão central da filosofia é o problema de como se deve encarar a vida para que se possa viver bem. Esse problema assume a forma de intensa preocupação com o estado de sua própria alma, em virtude da natureza delicada e sensível do autor das Meditações, homem sobretudo religioso e pouco interessado na investigação científica. Por essa razão o estoicismo de Marco Aurélio freqüentemente apresenta discrepâncias em relação às suas origens gregas. Marco Aurélio não chegou a ser um pensador original e não procurou resolver as inconsistências de sua própria posição. Enquanto a ortodoxia estóica levava-o na direção de um credo materialista, seu sentimento religioso impelia-o no sentido da força moral e da benevolência. Por isso, as Meditações de Marco Aurélio expressam-se através de uma linguagem que, por um lado, parece pressupor a aceitação de um panteísmo puramente físico; por outro, abandona os dogmas da escola estóica para seguir os ditames do coração.
Por certo a verdadeira chave para compreensão das oscilações de Marco Aurélio deve ser procurada menos em suas características psicológicas do que nas circunstâncias históricas em que viveu. O império romano estava perdendo o antigo esplendor e a cultura clássica greco-latina mostrava os últimos sinais de vitalidade. Cada vez mais ganhava corpo uma nova concepção do mundo: o cristianismo.
Marco Aurélio expressa claramente essa etapa de transição. Nele a auto-suficiência do antigo estoicismo grego cede lugar à falta de confiança em si mesmo e à consciência das próprias imperfeições. Com isso antecipa a virtude cristã da humildade e pouco se distanciava da concepção de um Deus único, antropomórfico e pessoal.
Lázaro Curvêlo Chaves – 28 de setembro de 2004

Instituto de Pesquisas Sociais Euclides da Cunha
Bibliografia:
O Epicurismo – Os Pensadores, Ed. Abril
Cícero, Sêneca, Marco Aurélio, Os Pensadores, Ed. Abril
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O Epicurismo já foi definido como a forma inicial do que hoje chamamos de “auto-ajuda”: não há nada a fazer para melhorar o mundo, portanto, tentemos viver o melhor possível….
Painel Histórico
Ao perder sua liberdade política, dominada que fora primeiro pelos macedônios, a seguir pelos romanos, a Grécia antiga sofreu uma alteração profunda nos quadros dentro dos quais vinha desenvolvendo sua experiência cultural e, em particular, sua criação mais arrojada: a especulação filosófica.
Tornando-se parte do império fundado por Filipe da Macedônia e ampliado por seu filho Alexandre, o país passou a integrar um vasto organismo político, verdadeiro mosaico de povos. Tendem a se diluir as distinções entre gregos e orientais, distinções que, então, os primeiros orgulhosamente proclamavam e procuravam preservar.
Heródoto de Halicarnasso, historiador (circa 460 a.C. – 425 a.C.) mostrara que a raiz dessas distinções estava no senso de liberdade política que um grego possuía por pertencer a uma cidade-Estado, cônscia de sua autonomia e de suas tradições, e onde, ao usufruir os direitos de cidadania, ele não estava submetido a nenhum senhor. O abismo entre os gregos do período helênico e os “bárbaros” orientais provinha, segundo Heródoto, da consciência de liberdade que os gregos desenvolveram a partir da peculiaridade de sua organização social e política. Essa consciência de liberdade está ilustrada, pelo historiador, no episódio dos dois espartanos que, por ocasião das Guerras Médicas, se apresentam voluntariamente aos persas para serem sacrificados como expiação pelo assassínio dos embaixadores de Xerxes. Indagados sobre os motivos que levavam Esparta insistia a resistir ao Grande Rei, rejeitando as vantagens da rendição e da submissão, os dois gregos respondem ao persa que os conduzia ao sacrifício: “Tu não podes compreender. Conheces apenas a vida de servidão. Jamais experimentaste a liberdade, para saber se ela é doce ou não. Do contrário, tu nos aconselharias a combater por ela não somente com a lança, mas também com o machado”.
Depois da batalha de Queronéia (338 a.C.), que marca a derrota dos gregos frente à Macedônia, a situação muda completamente. O desaparecimento da autonomia da cidade-estado torna sem sentido qualquer sentimento isolacionista. Mas, pelo fato mesmo de inserir-se no grande organismo político dos macedônios, a cultura grega se difunde, tornando-se patrimônio comum a todos os países mediterrâneos. Começa o chamado período helenístico, no qual, desde a morte de Alexandre até a conquista romana, a cultura grega vai progressivamente se impondo do Egito e da Síria até Roma e Espanha. E se Atenas inicialmente permanece como centro da investigação científica e filosófica, outros focos de atividade intelectual passarão depois a se afirmar, particularmente Alexandria.
No período helenístico as ciências particulares começam a ter desenvolvimento autônomo, despregadas do tronco original da antiga sabedoria filosófica. O século III a.C. é o século de Euclides, de Arquimedes (287-212 a.C.) e de Apolônio de Perga (c. 262 – c.180 a.C.), um esplêndido século, portanto, para as matemáticas e a astronomia. Mas é também o século em que, no museu de Alexandria – cujo bibliotecário é o geógrafo Eratóstenes (275- 194 a.C.) -, ocorre grande desenvolvimento da crítica filosófica e das ciências baseadas na observação. Surge um novo tipo de intelectual, inexistente na fase helênica: o especialista, o erudito. E se isso representa um impulso às especializações científicas, manifesta também o novo rumo que tomara o conhecimento, desde que sua meta deixara de ser o universo político: o da realização subjetiva e pessoal, que acompanha o ideal de ciência pela ciência.
Em busca da serenidade
As novas condições impostas ao mundo grego tornam impossível a participação do indivíduo no governo da polis, que o cidadão helênico conhecera sobretudo na fase democrática. O conhecimento deixa de ser preparação para a atividade política (como fora em Platão), passando a se ocupar do aprimoramento interior do homem. Distanciada das preocupações políticas, a filosofia aspira ao estabelecimento de normas universais para a conduta humana e se propõe a dirigir as consciências: o problema ético torna-se o centro da especulação de diferentes correntes filosóficas.
As éticas helenísticas partem à procura do bem individual, de uma sabedoria que represente a plenitude da realização subjetiva: o alcance da perfeita serenidade interior, independente das circunstâncias. O bem não mais terá o sentido metafísico do Bem de Platão, fundamento das idéias, dos modelos do mundo corpóreo, e, conseqüentemente, sustentação tanto do sujeito do conhecimento e da ação quanto da própria realidade objetiva. O bem das éticas helenísticas terá acepção estritamente existencial: é o bem como sinônimo do que é bom para o indivíduo, para a vida de cada homem.
Para traçar o caminho que conduz à serenidade interior, algumas éticas helenísticas – o epicurismo e o estoicismo – partem de uma concepção do universo fundamentada racionalmente. Ao contrário do que propunha o socratismo, epicuristas e estóicos fazem da ciência sobre a natureza das coisas a base para as suas construções morais. Bem diverso será o itinerário prescrito pelo ceticismo, fundado por Pirro de Êlis (360-270 a.C.): à imperturbabilidade de espírito só se chegaria partindo-se da suspensão de qualquer julgamento, renunciando-se a qualquer explicação científica, abandonando-se toda pretensão de alcançar certezas inatingíveis.
Outra corrente de pensamento que se manifesta no período helenístico é o ecletismo. Procurando um critério para a ação que escapasse às disputas das diferentes escolas, essa filosofa pretenderá estabelecer, para além das divergências, um “sentido comum”, um consenso universal. Tal forma de pensar teve larga aceitação na fase romana e Cícero foi seu mais eminente representante.
O caráter de religiosidade, que se tornará evidente no pensamento ocidental a partir do século I d.C., afirma-se antes em centros orientais da cultura helenística, como Alexandria. Manifesta-se então acentuada tendência à fusão ou ao sincretismo religioso. Ao mesmo tempo, ocorre o confronto entre duas tradições: a greco-romana, formulada através de filosofias dotadas de alto índice de racionalização, e a da religiosidade oriental, fundada – como no judaísmo e no cristianismo – na noção de verdade revelada. Os primeiros efeitos da repercussão do espírito religioso sobre a filosofia manifestam-se nos judeus-alexandrinos (do século II a.C. ao I d.C.), nos neopitagóricos e platônicos pitagorizantes (entre o século I a.C. e III d.C.) e nos últimos defensores do pensamento e da religião do politeísmo: os neoplatônicos do século II ao século VI d.C.
O neoplatonismo constituiu a mais perfeita manifestação de sincretismo religioso dessa época e teve em Plotino (204-270) seu principal representante. Para o neoplatonismo – canto de cisne do pensamento da antiga Grécia -, todos os seres resultariam de sucessivas emanações do Um, divino, transcendente e inefável. Antes de se calar, a filosofia grega medita sobre um último tema: o silêncio do Ser.
O jardim da amizade e do prazer
Nascido em 341 a.C., em Atenas ou em Samos, Epicuro teria acompanhado, dos catorze aos dezoito anos, os ensinamentos do acadêmico Pânfilo. E, através de Nausífanes de Teo, discípulo de Demócrito (c. 460 – 370 a.C.), teria conhecido as doutrinas desse grande atomista. Durante algum tempo ganhou a vida como professor de gramática. Em seguida deu cursos de filosofia, primeiro em Lâmpsaco, depois em Mitilene e Colofonte. Finalmente regressa a Atenas, por volta de 306 a.C., onde adquire uma pequena casa e abre uma escola de filosofia, que ficará conhecida como o Jardim de Epicuro.
Os alunos não têm em Epicuro um mestre no estilo tradicional: na verdade, formam um grupo de amigos que filosofam juntos. Epicuro exerce influência, não só pelo ensino direto como pela extraordinária personalidade. É um homem bondoso, de natureza terna e amável, que, apesar dos sofrimentos físicos impostos pela doença que o tortura e aos poucos o paralisa, cultiva as amizades, auxilia os irmãos e trata os escravos com civilidade. Por essa razão todos os que o conhecem dificilmente deixam seu convívio.
Epicuro foi intensamente venerado pelos seus primeiros discípulos, grandes admiradores seus. E cerca de dois séculos depois de sua morte – ocorrida em 270 a.C. – ainda será assim exaltado pelo poeta romano Lucrécio, seguidor e expositor de suas idéias: “Foi um deus, sim, um deus, aquele que primeiro descobriu esta maneira de viver que agora se chama sabedoria, aquele que por sua arte nos fez escapar de tais tempestades e de tais noites, para colocar nossa vida numa morada tão calma e tão luminosa”.
As tempestades e a noite a que se refere o poeta Lucrécio significam os temores e as perturbações que agitam o espírito humano e que Epicuro teria ensinado como vencer. “A morada tão calma e tão luminosa” seria a meta proposta pelo epicurismo: a morada da serenidade e do prazer. Com efeito, toda a ética de Epicuro representa um esforço para libertar a alma humana de equívocos ou de infundadas crenças aterrorizadoras. A filosofia, para Epicuro, deveria servir ao homem como instrumento de libertação e como via de acesso à verdadeira felicidade. Esta consistiria na serenidade de espírito que advém da consciência de que é ao homem que compete conseguir o domínio de si mesmo.
O autodomínio – objetivo de toda reflexão filosófica – exige a libertação do jugo das falsas opiniões e a conquista do conhecimento verdadeiro e seguro da realidade e da posição do homem dentro dela. Conseqüentemente, a filosofia pode ser dividida em três partes que se articulam. Em primeiro lugar, a lógica, que permitiria distinguir quais as formas de conhecimento verdadeiro, quais as falsas. Em segundo lugar – com base nas soluções indicadas pela lógica -, uma física que mostrasse a verdadeira estrutura da realidade na qual se insere o homem. A lógica e a física constituiriam, assim, as disciplinas preliminares a possibilitar a descoberta dos fundamentos da ética. Esta seria a terceira parte da filosofia e seu objetivo último, constituindo a chave para abrir as portas da felicidade.
A teoria do conhecimento dos epicuristas (que eles chamavam de canônica) é o empirismo, isto é, reduz toda a origem do conhecimento à experiência sensível. As repetidas experiências dos sentidos, preservadas pela memória, dariam nascimento às antecipações (em grego: prolepsis), equivalentes às noções gerais ou conceitos. Quando se ouve a palavra homem, por exemplo, antecipa-se a presença real e efetiva de um homem, sem que o mesmo esteja sendo apreendido de fato por qualquer dos sentidos. As prolepsis teriam a função de classificar as experiências e fixar seus limites de variação. Seriam em si mesmas verdadeiras, pois simplesmente registram e preservam as diferenças e semelhanças encontradas na experiência sensível.

A fonte da verdade
Depois que se possui um número suficientemente grande de prolepsis, podem-se formar juízos, verdadeiros ou falsos. A verdade de um juízo pode ser provada, segundo os epicuristas, de duas maneiras. Quando o juízo diz respeito a algo observável pelos sentidos, o critério é pura e simplesmente a concordância entre o juízo e os fenômenos sensíveis correspondentes. O segundo critério de verificação da verdade de uma proposição refere-se aos juízos sobre fenômenos não passíveis de observação através dos sentidos. Nesse caso diz-se que uma certa proposição é verdadeira se não entrar em contradição com outros dados fornecidos pela experiência (critério da não-infirmação). Os fenômenos adotados como prova são apenas signos de uma realidade invisível. Por exemplo, segundo a doutrina atomista, adotada por Epicuro, “todos os corpos, por mais compactos que sejam, possuem interstícios vazios dentro deles”. Esse juízo não é atestado diretamente pelos sentidos; mas, se não for admitido como verdadeiro, também não seria verdade que “a água destila através das rochas”, ou que “o calor e o frio passam através das paredes”.
A conjugação do conhecimento sensível e do conhecimento racional permite a Epicuro justificar sua adesão ao atomismo criado por Leucipo (meados do século V a.C.) e Demócrito (c. 470 – c. 370 a.C.). Com efeito, se os sentidos atestam o movimento como uma evidência, seria verdadeira, graças ao critério da não-infirmação, a teoria atomista, que apresenta uma explicação racional para o movimento, afirmando que tudo é constituído de átomos (invisíveis) que se movem no vazio.
Como os anteriores atomistas, Epicuro considera os átomos como infinitos em número, indivisíveis fisicamente (insecáveis) e imensamente pequenos (sua variação de tamanho estaria situada aquém do limiar de percepção); além disso, seriam móveis por si mesmos, pois o vazio não ofereceria qualquer resistência à locomoção. Leucipo e Demócrito haviam afirmado que os átomos, materialmente idênticos, diferiam uns dos outros apenas pela forma, pelo tamanho, pela posição ou, quando constituíam conjuntos, pelo arranjo. Epicuro, porém, introduz uma nova distinção: os átomos seriam diferentes também quanto ao peso. Os primeiros atomistas consideravam o peso uma resultante do tamanho dos átomos: os maiores, mais sujeitos aos impactos dos outros, locomovem-se com mais dificuldade e tendem a ocupar o centro dos agrupamentos de átomos, comportando-se como mais pesados. Ao contrário, Epicuro considera o peso um atributo inerente aos átomos, concebendo, portanto, um peso absoluto e não relativo. E devido ao peso é que os átomos, num momento inicial, são imaginados por Epicuro como “caindo”; mas, situados dentro do vazio, teriam que desenvolver, nessa “queda”, trajetórias necessariamente paralelas. Isso significa que os átomos jamais se chocariam – dando origem aos engates e aos torvelinhos indispensáveis à constituição das coisas e dos mundos – se algum fator não viesse interferir naquele paralelismo das trajetórias. Afastando-se do rígido mecanicismo da física dos primeiros atomistas, Epicuro introduz então a noção de desvio (clinamen): sem nenhuma razão mecânica, os átomos, em qualquer momento de suas trajetórias verticais, podem se desviar e se chocar. O clinamen aparece, assim, como a introdução do arbítrio e do imponderável num jogo de forças estritamente mecânico: é a ruptura da necessidade, do plano da física, para acolher a contingência.
A justificativa do clinamen está garantida pela canônica de Epicuro: a evidência imediata revela que existe um ser – o homem – que, embora constituído de átomos (como todos os seres do universo), manifesta a possibilidade de arbítrio, pelo qual altera os rumos de sua vida ou, pelo menos, pode modificar sua atitude interior diante dos acontecimentos. A existência da vontade livre seria, portanto, o fato experimentado que, através do critério da não-infirmação, encontraria explicação no desvio que deve também ocorrer nas trajetórias atômicas. Inconcebível seria admitir que um composto (o homem) apresentasse atributos inexistentes em seus componentes (os átomos). A doutrina do clinamen serve, assim, para fundamentar, dentro de um universo de coisas regido pelo fatalismo e pela necessidade mecânica, a espontaneidade da alma, a autonomia da vontade, a liberdade humana. Na física Epicuro situa as premissas de sua ética.
A verdadeira sabedoria
Com sua concepção materialista da realidade, Epicuro pretende libertar o homem dos dois temores que o impediriam de encontrar a felicidade: o medo dos deuses e o temor da morte. Os deuses existem, afirma Epicuro, mas seriam seres perfeitos que não se misturam às imperfeições e às vicissitudes da vida humana. Os deuses viveriam em perfeita serenidade rios es aços que separam os mundos. Sua perfeição suprema constitui o ideal a que aspiram os sábios e deve ser objeto de culto desinteressado; não teria sentido adorá-los de maneira servil, temerosa e interesseira, pois eles desconhecem o mundo imperfeito dos homens e de modo algum atuam sobre ele. Quanto à morte, não há também por que temê-la. Ela não seria mais que a dissolução do aglomerado de átomos que constitui o corpo e a alma. A morte, portanto, não existe enquanto o homem vive e este não existe mais quando ela sobrevém.
A libertação do temor dos deuses e da morte não basta para conduzir o homem à verdadeira felicidade. É necessário ainda que ele se liberte da ânsia incontrolada de prazeres e do incontido pesar pelas dores.
A luminosidade racional da doutrina atomista permitiria ao homem afastar os sombrios temores que lhe intranqüilizavam a alma, bem como reconhecer-se como um ser perfeitamente integrado na natureza universal. Enquanto ser natural, o homem – como os animais – pauta sua vida, espontaneamente, pela procura do prazer e pela fuga da dor. Mas a verdadeira sabedoria está além desse comportamento natural e espontâneo: sábio é reconhecer que há diferentes tipos de prazer, para saber selecioná-los e, dosá-los. O hedonismo epicurista reconhece que o ponto de partida para a felicidade está ria satisfação dos desejos físicos, naturais. Mas essa satisfação, para não acarretar sofrimentos, deve ser contida, reduzindo-se ao estritamente necessário: sábio é aquele que “com um pouco de pão e de água rivaliza com Júpiter em felicidade”.
Epicuro considera que todo prazer é basicamente um prazer corpóreo. Mas, ao contrário dos cirenaicos – corrente hedonista que se pretendia herdeira de Sócrates -, Epicuro afirma que o prazer que o homem deve buscar não é o da pura satisfação física imediata e mutável, o “prazer do movimento”. Para Epicuro, o prazer que deve nortear a conduta humana – o prazer com dimensão ética e não apenas natural – é o “prazer do repouso”, constituído pela ataraxia (ausência de perturbação) e pela aponia (ausência de dor). Ambas podem ser alcançadas na medida em que o homem, através do autodomínio, busque a auto-suficiência que o torne um ser que tem em si mesmo sua própria lei, um ser autárquico, capaz de ser feliz e sereno independentemente das circunstâncias. Para tanto, deve renunciar aos prazeres que possam ser fontes de aflição e aceitar a dor quando ela é portadora de um bem futuro (que nunca deve ser confundido com a suposta vida depois da morte). É necessário, portanto, fazer um cálculo utilitário dos prazeres e das dores possíveis, como primeiro passo para a conquista da felicidade. Epicuro, porém, reconhece que as circunstâncias podem impor a dor como um fato inelutável. Sabedoria será então utilizar a liberdade interior e, através do artifício que essa liberdade permite, permanecer sereno e feliz. À dor presente, ensina Epicuro, pode-se escapar por meio da lembrança dos prazeres passados ou pela expectativa de prazeres futuros. Interiormente, o homem é livre para jogar, à vontade, com as imagens (eidola) que seriam resquícios corpóreos (formados de átomos mais tênues) de suas sensações. Epicuro – ele próprio um homem doente e vítima de terríveis sofrimentos físicos, ele próprio um grego sem liberdade política – teria dado a demonstração dessa técnica interior de evasão, capaz de permitir ao homem enfrentar serenamente as mais adversas circunstâncias. Seu hedonismo altamente espiritualizado, que fazia da contemplação intelectual e das delícias da amizade os mais elevados prazeres, legou às éticas posteriores uma lição que nunca mais será esquecida: a de que o homem também pode se sustentar de recordações e de esperanças.
A poesia do materialismo
Na própria Antiguidade o epicurismo não sofreu reformulações. Os seguidores imediatos de Epicuro limitaram-se a cultuar a memória do mestre e a preservar e propagar suas idéias.
Segundo Diógenes Laércio, a obra de Epicuro compreendia cerca de trezentos títulos, dentre os quais só Sobre a Natureza compreenderia 37 livros. Dessa grande quantidade de escritos, todavia, restou muito pouco: o próprio Diógenes Laércio conservou uma Carta a Heródoto (que trata da física), uma Carta a Pítocles (de autenticidade contestada e tratando dos meteoros) e uma Carta a Meneceu (sobre moral); Diógenes Laércio faz seguir essas cartas de quarenta sentenças atribuídas a Epicuro e conhecidas sob a denominação de Máximas Principais. Em 1888, K. Wotke descobriu, num manuscrito da biblioteca do Vaticano, 81 máximas de Epicuro, algumas já inseridas nas Máximas Principais. Por outro lado, as escavações realizadas em Ilerculanum trouxeram à luz uma biblioteca epicurista, contendo inclusive o Sobre a Natureza de Epicuro.
Mas, se os escritos de Epicuro só são conhecidos de forma fragmentária, existe uma outra fonte para o conhecimento de sua doutrina: o poema Da Natureza das Coisas, de seu seguidor Lucrécio, que viveu em Roma entre os anos 99 e 55 a.C.
Pouco se sabe da vida de Tito Caio Lucrécio. Nasceu provavelmente em Roma, onde foi educado. Quando conheceu a doutrina de Epicuro – “honra da raça grega” -, Lucrécio deslumbrou-se com seus ensinamentos, que lhe pareceram a chave para desvendar os segredos do universo e para abrir as portas da felicidade humana. Seguindo as pegadas do mestre, Lucrécio propõe-se a tarefa de libertar os romanos da religião que os oprimia e que sobre eles pesava com mais força do que outrora pesara sobre os gregos.
Além de servir de fonte para conhecimento da doutrina epicurista, o poema de Lucrécio tem imensa importância literária: através dele Lucrécio se revela um dos maiores poetas da língua latina.
Lucrécio matou-se em 55 a.C. Seu poema, escrito em intervalos de ataques de loucura, ficou inacabado e foi completamente revisado, para publicação, segundo algumas fontes, por um irmão de Cícero chamado Quinto. Segundo outras fontes, aquele trabalho foi feito pelo próprio Cícero, que tinha pelo poeta do materialismo profunda admiração.
A Consciência Infeliz
“Estoicismo” tornou-se expressão consagrada no vocabulário atual, com o sentido de “firmeza e serenidade diante das adversidades”. Esta doutrina filosófica é a expressão (tanto como do epicurismo, do qual é contemporânea) de um tipo normativo de vida ecumênica conforme à razão e de aceitação espontânea da fatalidade de leis universais. A escola representa um retrocesso em relação às conquistas anteriores de reflexão filosófica sobre o mundo, compreendendo o período pré-socrático e a teoria atomística de Leucipo e Demócrito de Abdera. A divisa latina nihil mirari (não se admirar) cunhada mais tarde pelos estóicos latinos, em contrapartida ao assombro, de que falava Platão, demarca negativamente esse aspecto de acolhida resignada dos acontecimentos universais.
O “não assombrar-se”do estóico, atitude vizinha à da incompreensão, projeta no espaço e no tempo histórico esse sentimento trágico da vida que Pascal traduz como oposição entre a idéia de verdade e sua impotência para prová-la, revivendo o drama da condição humana que os existencialistas modernos exploram até o desespero. O drama da consciência infeliz, característica do modelo estóico, tanto quanto do epicurista e mesmo do existencialismo do século XX reflete um época histórica perpassada por grave crise, com falta de liberdade política, grande fatalidade e, não raro, tragédia física pessoal como uma severa enfermidade (caso de Demócrito). No existencialismo, por exemplo, o drama subjetivo moral reside em ser-se “fiel a si mesmo”, centra-se numa exaltação da individualidade – retrato de uma capitulação em atuar na prática política em busca de transformação –, cuja existência é essencial e constitutiva.
A consciência estóica só se afirma pela cisão do eu em relação ao mundo: busca a certeza e a segurança fora de toda a ligação com outros seres humanos, separando-se das coisas e do conhecimento das coisas, puramente negativas, sobretudo fixada na negatividade, a consciência de si do estóico se transforma em ceticismo e a liberdade do estóico não é senão um estado de consciência infeliz.
A crise existencial dos estóicos oscila entre situações excludentes, limitativas, de um estado a outro no círculo mágico, repetitivo, de todas as coisas e de todo os seres encontra ainda um parentesco curioso nas exortações de Zaratustra, de Nietzsche: a palingenesia, o eterno retorno, do mundo e dos seres na fatal trajetória de nascimento, morte e ressurreição, sem termo nem descanso. “A vida que vives agora, haverás de vivê-la inúmeras vezes; cada dor, cada alegria, cada pensamento e cada suspiro…tudo voltará de novo e tudo na mesma ordem”.
Nunca, ao certo, se precisaram os motivos que tão rapidamente fizeram retroagir os ideais humanísticos aos níveis desse estado de consciência dilacerada de que são exemplo as tendências éticas que se manifestaram, concomitantemente, à crise do mundo helenístico – a sociedade escravista em dissolução – dentre elas o estoicismo e o epicurismo.
Em suma, a decadência das instituições gregas, a perda dos valores éticos e dos deuses tutelares, como reflexo da tragédia econômica e política de lutas externas e intestinas entre as facções constituem o quadro real dessa fase helenística da história que reserva ao estóico desamparado a única saída de salvação: uma fuga da realidade do mundo na forma de uma cisão esquizofrênica do eu com o mundo… As tragédias são enormes, a Grécia perdeu sua autonomia, dominada pelos macedônios e, a seguir pelos romanos, a tirania impera e o espaço político está ocupado por estrangeiros ou por uma classe social que não me escuta. Que fazer? Buscar a felicidade ou a ataraxia, a imperturbabilidade, em isolamento da realidade.
No século XIX alguns arqueólogos descobriram em Enoanda, atual Turquia, os restos de uma muralha, com uma inscrição. Dela constavam trechos de ensinamento que Diógenes de Enoanda, discípulo de Epicuro, gravou para disponibilizar a todos quantos passassem por ali, fosse homem, mulher ou criança, de qualquer nacionalidade, o que seria um resumo da sabedoria humana em quatro frases, uma prescrição médica para a alma, um TETRAPHARMAKON que dizia:
1) Não há nada a temer quanto aos deuses;
2) Não há necessidade de temer a morte;
3) A Felicidade é possível;
4) Podemos escapar à dor.
Estoicismo
Marco Túlio Cícero
Em janeiro de 49 a.C., Júlio César decidiu-se por atravessar o Rubicão (alea jacta est), gesto que foi a gosta d’água no desencadeamento da guerra civil que o levaria a dominar todo o império. Venceu Pompeu em Farsala, instalou Cleópatra no trono do Egito, reorganizou o Oriente e derrotou os últimos adeptos do segundo triúnviro na África, em 46 a.C., e na Espanha, um ano depois. De volta a Roma em 45 a.C., começou a governar como déspota absoluto e tratou de eliminar os últimos adversários. Não suspeitava que isso teria importantes conseqüências para a história da filosofia.
Entre os adversários perseguidos estava Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), senador e figura proeminente da política romana nos anos anteriores. Obrigado a deixar os negócios públicos, Cícero recolheu-se à vida privada e retomou a meditação filosófica, de que já se ocupara num primeiro exílio, por volta de 51 a.C. O resultado foi um conjunto de obras, escritas em aproximadamente dois anos e que versavam sobre os mais variados assuntos: Sobre os Fins, Controvérsias Tusculanas e Sobre os Deveres tratam de problemas éticos; Os Tópicos e Os Acadêmicos abordam questões lógicas; A Natureza dos Deuses, Sobre a Arte Adivinhatória e Sobre o Destino são dedicados a temas da física.
Do ponto de vista da filosofia, essas são as principais obras escritas por Cícero no retiro forçado por César e vinham juntar-se a Sobre o Orador, escrito em 55 a.C., A República, redigida em 51 a.C., e Sobre as Leis, provavelmente da mesma época.
Esse conjunto de obras desempenharia papel de primeiro plano na história do pensamento porque fazia do latim um idioma filosófico. Pouco antes, Lucrécio tinha escrito o poema Sobre a Natureza, mas a obra não foi publicada senão após a morte do poeta e, ao que tudo indica, sob os cuidados de Cícero.
Apesar desse valor histórico, as obras de Cícero não contêm um pensamento original, limitando-se a amalgamar diferentes teorias filosóficas gregas. Cícero foi um típico eclético, discutindo os argumentos das diferentes doutrinas gregas correntes na época, sem vincular-se inteiramente a nenhuma.
Essas correntes ele tinha conhecido quando, na juventude, estudou em Atenas, antes de tornar-se conhecido advogado e homem público. Foi discípulo e amigo de epicuristas, estóicos, peripatéticos e acadêmicos. De todos eles Cícero retirou algumas idéias e compôs uma síntese que, além da importância pela criação de um vocabulário filosófico latino, constitui fonte de estudo de boa parte do pensamento clássico.
No que diz respeito às suas próprias posições doutrinárias, Cícero, em teoria do conhecimento, opôs-se tanto ao ceticismo radical de Pirro de Elis (360 – 270 a.C.) quanto ao dogmatismo extremado. Defendeu como critério de verdade o probabilismo do consenso universal, isto é, aquela posição que acha possível ao homem chegar a algum conhecimento das coisas, sem, no entanto atingir a verdade absoluta. A verdade estaria naquilo que pode ser aceito por todos. As razões dessa posição são colocadas menos num plano puramente lógico do que no terreno das necessidades práticas do homem. Para Cícero, o problema do conhecimento não pode ser solucionado exclusivamente em sua estrutura interna. O homem necessita, todavia, admitir como verdadeiras algumas noções sem as quais não é possível manter a coesão da sociedade.
Em moral, Cícero adere às doutrinas estóicas sem, entretanto, aceitar todo o rigor da concepção segundo a qual o exercício da virtude basta-se a si mesmo e consiste na conformidade da conduta humana às leis racionais da natureza.
Aceita essas idéias, mas exige que tais normas sejam validadas pelo consenso universal. Esse consenso universal articula-se em torno de algumas idéias que dão fundamento à vida moral e social, principalmente a da existência de Deus e sua providência. Tais noções seriam comprovadas pela consciência natural dos homens e pela constatação de que na natureza os fenômenos organizam-se em torno de fins, os quais supõem a existência de um fim último de todas as coisas. Outra idéia com a mesma função de fundamentar a vida social e moral é a da essência espiritual e divina da alma e sua imortalidade. Essa idéia encontrar-se-ia confirmada na preocupação do homem com sua vida futura.
Os estóicos
Depois de Cícero ter iniciado a história da filosofia em língua latina, formulando sua síntese eclética, o movimento de idéias mais importante dentro do pensamento romano foi o desenvolvimento das doutrinas estóicas, também originárias da Grécia, como o epicurismo e o ecletismo.
A escola estóica foi fundada por Zenão de Cicio (336 – 264 a.C.) e continuada por Cleanto de Assos (331 – 232 a.C.) e Crisipo de Solis (280 – 210 a.C). Posteriormente, a escola transformou-se, tendendo para uma posição eclética, com Panécio de Rodes (185 – 112 a.C.) e Possidônio de Apaméia (135 – 51 a.C.).
O estoicismo grego propõe uma imagem do universo segundo a qual tudo o que é corpóreo é semelhante a um ser vivo, no qual existiria um sopro vital (pneuma), cuja tensão explicaria a junção e interdependência das partes. No seu conjunto, o universo seria igualmente um corpo vivo provido de um sopro ígneo (sua alma), que reteria as partes e garantiria a coesão do todo. Essa alma é identificada, por Zenão, à razão, e assim o mundo seria inteiramente racional. A Razão Universal (Logos), que tudo penetra e comanda, tende a eliminar todo tipo de irracionalidade, tanto na natureza, quanto na conduta humana, não havendo lugar no universo para o acaso ou a desordem.
A racionalidade do processo cósmico manifesta-se na idéia de ciclo, que os estóicos adotam e defendem com rigor. Herdeiros do pensamento de Heráclito de Éfeso (séc. VI a.C.), os estóicos concebem a história do mundo como feita por sucessão periódica de fases, culminando na absorção de todas as coisas pelo Logos, que é Fogo e Zeus. Completado um ciclo, começa tudo de novo: após a conflagração universal, o eterno retorno.
Tudo o que existe é corpóreo e a própria razão identifica-se com algo material, o fogo. O incorpóreo reduz-se a meios inativos e impassíveis, como o espaço e o vazio; ou então àquilo que se pode pensar sobre as coisas, mas não às próprias coisas.
Nesse universo corpóreo e dirigido pelo fatalismo dos ciclos sempre idênticos, tudo existe e acontece segundo predeterminação rigorosa porque racional. Governada pelo Logos, a natureza é por isso justa e divina e os estóicos identificam a virtude moral com o acordo profundo do homem consigo mesmo e, através disso, com a própria natureza, que é intrinsecamente razão. Esse acordo consigo mesmo é o que Zenão chama “prudência” e dela decorrem todas as demais virtudes, como simples aspectos ou modalidades.
As paixões são consideradas pelos estóicos como desobediências à razão e podem ser explicadas como resultantes de causas externas às raízes do próprio indivíduo; seriam, como já haviam mostrado os cínicos, devidas a hábitos de pensar adquiridos pela influência do meio e da educação. É necessário ao homem desfazer-se de tudo isso e seguir a natureza, ou seja, seguir a Deus e à Razão Universal, aceitando o destino e conservando a serenidade em qualquer circunstância, mesmo na dor e na adversidade.
Uma nova lógica
Os estóicos gregos não se limitaram a formular uma física e uma ética. Elaboraram também uma teoria do conhecimento de acentuada originalidade. As três formariam um conjunto sistemático que expressaria, no plano do conhecimento, a mesma racionalidade encontrada na natureza.
A teoria do conhecimento consiste, para os estóicos, em vincular estreitamente a certeza e a ciência ao plano do conhecimento sensível. A base de qualquer conhecimento seriam as impressões recebidas pelos sentidos; mas já o nível do sensível estaria penetrado pela razão, sendo portanto predisposto à sistematização pela inteligência.
Ao lado das coisas sensíveis, os estóicos distinguem os “exprimíveis”, isto é, aquilo que se pode pensar e dizer sobre as coisas. Os “exprimíveis” seriam objeto da dialética, disciplina que se ocuparia dos enunciados verdadeiros ou falsos a respeito das coisas, e não sobre as próprias coisas.
Os mais simples enunciados, segundo os estóicos, são compostos por um sujeito (expresso por um substantivo ou um pronome) e um atributo (expresso por um verbo). Esses enunciados distinguem-se, assim, das proposições da lógica aristotélica, que estabelecem relações entre conceitos (por exemplo: “o homem é um animal racional”). Na lógica estóica, o sujeito é sempre singular (alguém, Pedro, etc.) e o atributo indica sempre algo que ocorre com o sujeito. As ligações entre os enunciados, portanto, nunca assumem o caráter de juízo categórico, permanecendo como relacionamento entre eventos, cada qual expresso por uma proposição simples (por exemplo: “Está claro, é dia”).
Os estóicos distinguem cinco tipos de juízos compostos que reúnem os enunciados simples. O juízo hipotético exprime relação entre antecedente e conseqüente (“Se há fumaça, há fogo”). O juízo conjuntivo simplesmente justapõe fatos (“É dia, está claro”). O juízo disjuntivo separa os enunciados, de modo que só um deles pode ser verdadeiro (“Ou é dia, ou é noite”). O juízo causal exprime relação de causa e efeito (“Está claro porque é dia”). Finalmente, o quinto tipo de juízo expressa a idéia de mais e menos (“Fica menos claro quando é mais noite”).
Sêneca – A medicina da alma
Não foi a lógica dos estóicos gregos, nem mesmo sua teoria do mundo físico, que sobretudo atraiu o interesse dos estóicos romanos. Foi antes sua moral da resignação, sobretudo nos aspectos religiosos que ela permitia desenvolver.
O primeiro representante do estoicismo romano, sem contar as idéias estóicas que se encontram no ecletismo de Cícero, foi Lucius Annaeus Seneca, nascido em Córdoba (Espanha), aproximadamente quatro anos antes da era cristã. Era filho de Annaeus Seneca (55 a.C.-39 a.D.) – conhecido como Sêneca, o Velho -, que teve renome como retórico e do qual restou uma obra escrita (Declamações). O futuro filósofo Sêneca foi educado em Roma, onde estudou a retórica ligada à filosofia. Em pouco tempo tornou-se famoso como advogado e ascendeu politicamente, passando a ser membro do senado romano e depois nomeado questor.
O triunfo político, no entanto, não se fazia sem conflitos e o renome de Sêneca suscitou a inveja do imperador Calígula, que pretendeu desfazer-se dele pelo assassinato. Sêneca, contudo, foi salvo por sua saúde frágil; julgava-se que ele morreria muito cedo, de morte natural. O próprio Calígula é que faleceria logo depois e Sêneca pôde continuar vivendo em relativa tranqüilidade. Não duraria esse período muito tempo. Em 41 d.C: foi desterrado para a Córsega, sob acusação de adultério, supostamente praticado com Júlia Livila, sobrinha do novo imperador Cláudio César Germânico. Na Córsega, Sêneca passaria quase dez anos em grande privação material.
Em 49 d.C., Messalina, primeira esposa do imperador Cláudio e responsável pelo exílio de Sêneca, caiu em desgraça e foi condenada à morte. O imperador Cláudio casou-se com Agripina e esta mandou chamar Sêneca para educar seu filho Nero. Em 54 d.C., quando Nero se torna imperador, Sêneca passa a ser seu principal conselheiro. Esse período estende-se até 62 d.C., ano em que sua estrela começa a perder o brilho junto ao despótico soberano. Sêneca deixa a vida pública e sofre a perseguição de Nero, que acaba por condená-lo ao suicídio, em 65 d.C.
As Cartas Morais de Sêneca, escritas entre os anos 63 e 65 e dirigidas a Lucílio, misturam elementos epicuristas com idéias estóicas e contêm observações pessoais, reflexões sobre a literatura e crítica satírica dos vícios comuns na época. Entre os seus doze Ensaios Morais, destacam-se Sobre a Clemência, cautelosa advertência a Nero sobre os perigos da tirania, Da Brevidade da Vida, análise das frivolidades nas sociedades corruptas, e Sobre a Tranqüilidade da Alma, que tem como assunto o problema da participação na vida pública. As Questões Naturais expõem a Física estóica enquanto vinculada aos problemas éticos.
Além dessas obras propriamente filosóficas, Sêneca escreveu ainda nove tragédias e uma obra-prima da sátira latiria, Apolokocintosis, que ridiculariza Nero e suas pretensões à divindade.
Todas essas obras revelam que Sêneca foi, sobretudo, um moralista. A filosofia é para ele uma arte da ação humana, uma medicina dos males da alma e uma pedagogia que forma os homens para o exercício da virtude. O centro da reflexão filosófica deve ser, portanto, a ética; e a física e a lógica devem ser consideradas como seus prelúdios.
Sua concepção do mundo repete as idéias dos estóicos gregos sobre a estrutura puramente material da natureza. Contudo, a razão universal dos gregos Cleanto e Zenão transforma-se em Sêneca num deus pessoal, que é sabedoria, previsão e vigilância, sempre em ação para governar o mundo e realizar uma ordem maravilhosa.
Marco Aurélio – O imperador filósofo
Cronologicamente, o segundo grande representante do estoicismo romano foi Epicteto (c. 50 – 130 ), escravo durante muitos anos e, posteriormente, professor de filosofia. Seu ensino foi recolhido pelo discípulo Ariano de Nicomédia, em oito livros. Chegaram até a atualidade quatro livros inteiros e apenas alguns fragmentos dos restantes.
Grande admirador de Epicteto foi o imperador Marco Aurélio Antonino, que, nas pausas tranqüilas de seu conturbado governo, se dedicou à reflexão filosófica e com isso tornou-se o terceiro e último grande expoente do estoicismo romano.
Marco Aurélio nasceu em 121, no seio de uma família aristocrática, e muito cedo perdeu os pais. Foi então adotado pelo tio, Aurélio Antonino. O tio tornar-se-ia imperador e nomearia Marco Aurélio seu sucessor, em 161.
Aos onze anos de idade, Marco Aurélio conheceu o estoicismo e adotou hábitos de vida austera, recomendados por aquela escola filosófica. Depois dos anos de formação passou a colaborar intimamente com o imperador, seu pai adotivo, ocupando o cargo de cônsul por três vezes. Em 161, Aurélio Antonino faleceu e Marco Aurélio tornou-se imperador.
O governo de Marco Aurélio – que se estendeu por quase vinte anos, até sua morte em 180 – foi perturbado por guerras sangrentas e prolongadas, com as conseqüentes dificuldades internas. Além disso, Roma foi vítima de inundações, tremores de terra e incêndios. Marco Aurélio conseguiu enfrentar todas as dificuldades, tendo sido excelente guerreiro e administrador e, ao mesmo tempo, humanizando profundamente o exercício do poder. Nos poucos momentos que os encargos de governo permitiam, recolhia-se à meditação filosófica e escrevia seus pensamentos em língua grega, que lhe parecia a mais apta a exprimir inquietações intelectuais e morais profundas. As Meditações (como posteriormente ficaram conhecidos aqueles pensamentos) são simples notas, apenas esboçadas.
O conteúdo das Meditações é a filosofia estóica, mas de um estoicismo bastante distante das doutrinas de Zenão, Cleanto e Crisipo. As especulações físicas e lógicas cedem lugar ao caráter prático dos romanos e ao aconselhamento moral. Em Marco Aurélio – como também nas Máximas de Epicteto – a questão central da filosofia é o problema de como se deve encarar a vida para que se possa viver bem. Esse problema assume a forma de intensa preocupação com o estado de sua própria alma, em virtude da natureza delicada e sensível do autor das Meditações, homem sobretudo religioso e pouco interessado na investigação científica. Por essa razão o estoicismo de Marco Aurélio freqüentemente apresenta discrepâncias em relação às suas origens gregas. Marco Aurélio não chegou a ser um pensador original e não procurou resolver as inconsistências de sua própria posição. Enquanto a ortodoxia estóica levava-o na direção de um credo materialista, seu sentimento religioso impelia-o no sentido da força moral e da benevolência. Por isso, as Meditações de Marco Aurélio expressam-se através de uma linguagem que, por um lado, parece pressupor a aceitação de um panteísmo puramente físico; por outro, abandona os dogmas da escola estóica para seguir os ditames do coração.
Por certo a verdadeira chave para compreensão das oscilações de Marco Aurélio deve ser procurada menos em suas características psicológicas do que nas circunstâncias históricas em que viveu. O império romano estava perdendo o antigo esplendor e a cultura clássica greco-latina mostrava os últimos sinais de vitalidade. Cada vez mais ganhava corpo uma nova concepção do mundo: o cristianismo.
Marco Aurélio expressa claramente essa etapa de transição. Nele a auto-suficiência do antigo estoicismo grego cede lugar à falta de confiança em si mesmo e à consciência das próprias imperfeições. Com isso antecipa a virtude cristã da humildade e pouco se distanciava da concepção de um Deus único, antropomórfico e pessoal.
Lázaro Curvêlo Chaves – 28 de setembro de 2004

Instituto de Pesquisas Sociais Euclides da Cunha
Bibliografia:
O Epicurismo – Os Pensadores, Ed. Abril
Cícero, Sêneca, Marco Aurélio, Os Pensadores, Ed. Abril
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